Comunidade de ‘Magic: The Gathering’ Une-se a Estuprador Condenado

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[Aviso para descrições de violência sexual.]

Em 2003, um aluno do segundo ano da Universidade de Virgínia, Zachary Jesse, estuprou uma jovem quando ela caiu inconsciente em um banheiro. Ele a penetrou pelo ânus e pela vagina, deixando escoriações visíveis, e tirando sua virgindade. Zach se entregou como culpado por agressão sexual e serviu uma sentença de três meses.

Depois que o passado ruim de Zach veio à tona, a empresa de jogos Wizards of the Coast decidiu suspendê-lo como membro e bani-lo dos campeonatos oficiais de “Magic: The Gathering”, onde Zach tinha se tornado uma figura bem conhecida.

A comunidade de “Magic: The Gathering” ficou furiosa. Não porque havia um estuprador no meio deles, mas porque não havia um. Eles queriam Zach de volta.

zach jesse petition
“Permitam que Zachary Jesse continue jogando ‘Magic: The Gathering’ em eventos sancionados pela DCI”
Essa foto não está ajudando seu caso, gente. helping your case, guys.

Sim, fãs de “Magic: The Gathering” se uniram a Zach, exigindo que a “Wizards of the Coast” o restabeleçam como membro e o deixe vir a campeonatos oficiais para que ele possa jogar cartas com outros humanos, alguns dos quais são mulheres e provavelmente não se sentem ótimas numa competição cara-a-cara contra alguém que forçou seu pênis dentro da vagina de uma mulher desmaiada.

O próprio Zach já falou sobre o banimento e apresentou seu caso (no Reddit, é claro), e parece um pouco a narrativa de inLolita de Humbert HumbertZachary Jesse não demonstra absolutamente nenhum remorso por seu comportamento, nem parece entender que o que ele fez foi errado. Ele escreve:

Eu tinha 18 (muito próximo de 19) em agosto de 2003 quando o incidente ocorreu.

Note a linguagem que Zach usa aqui: “quando o incidente ocorreu”. Não “quando eu cometi esse crime terrível”. É assim que Zach se refere a esse ato de estuprar uma mulher inconsciente: uma coisa que aconteceu. Ele nunca reconhece a importância de sua ação, ou aceita qualquer responsabilidade pessoal por seu comportamento. Ele fala como se isso fosse um ato de Deus, ao invés de um crime que ele escolheu cometer sobre outro ser humano.

Em seguida, ele escreve:

O processo consistiu em eu alegar culpa por agressão sexual agravada e servir três meses de uma sentença de oito anos. A data de início da sentença foi adiada para permitir que eu terminasse meu semestre na universidade. A sentença também permitiu que eu servisse meu tempo num programa de liberação para trabalho para que eu pudesse continuar o estágio para o qual eu me preparava há meses.

A sentença dele não foi apenas risivelmente curta (três meses!), mas também foi adiada para que não causasse nenhuma inconveniência. E a sentença nem foi de fato uma sentença de prisão. Foi um programa de liberação para trabalho, que permite que um prisioneiro saia da prisão durante o dia. Tudo que Zach teve que fazer para servir sua sentença foi dormir na cadeia à noite.

Por estuprar uma mulher, Zachary Jesse teve que dormir numa cama desconfortável para alguns meses. Enquanto isso, Eric Garner foi enforcado à morte por vender cigarros. Ser branco e rico é maravilhoso!

Como Zach conseguiu uma sentença tão leve? Pode ter a ver com o fato de que seu advogado era membro da Troutman Sanders, uma advocacia internacional que representa homens de negócio riquíssimos e multinacionais. Isso, junto com seu passado acadêmico, sugere que os pais de Zach são bastante ricos.

Família rica, aluno de boa universidade e estuprador? Zachary Jesse é literalmente o vilão numa comédia dos anos 80. Só que eu invés de pregar peças maldosas nos outros personagens, ele comete crimes hediondos contra mulheres inconscientes.

Zach continua descrevendo como ele se casou, e então fez uma faculdade de Direito. É mais do que estranho que ele optou pela última, visto que uma ficha suja pode impedir uma pessoa de se tornar advogada. É quase como se ele acreditasse que estava isento de quaisquer consequências negativas resultantes de suas ações:

Em 2011, me candidatei a um curso de Direito. Talvez eu fosse (e ainda sou) ingênuo, mas essa vocação pareceu poética. Eu finalmente decidi frequentar a Universidade de Richmond. Eu havia escrito minha carta de aplicação com base em minha condenação, como isso havia me afetado, e como eu pretendia usá-la como um degrau para melhorar a mim e também à comunidade ao meu redor, ao invés de usá-la como corrente.

Que estória mais inspiradora! Bom para Zach por recusar a deixar que uma coisinha como culpa ou remorso o impedissem de viver uma vida maravilhosa!

Zach escreveu sua carta de entrada sobre sua condenação (não seu crime, mas sua condenação), e como resultado, recebeu da escola uma bolsa de US$ 30.000.

Trinta mil dólares. Por estuprar uma mulher.

Lembre-se: A única punição de Zach por seu crime foi passar três meses numa cela de mentira. E entendeu ele recebeu um prêmio de US$ 30.000 por realizações extraordinárias em estupro. Trinta mil dólares são mais do que os norte-americanos em geral ganham em três meses.

No geral, estuprar uma mulher inconsciente foi um ganho em massa para Zachary Jesse. Ele teve que dormir num colchão fedido para um momento, mas então ele recebeu US$ 30.000. A sociedade recompensou Zachary Jesse por cometer estupro. A consequência mais séria que ele teve que sofrer por estuprar uma mulher foi ser expulso de um campeonato de “Magic: The Gathering”. Não é à toa que ele está tão devastado. É literalmente a pior coisa que já aconteceu a ele.

Depois que a Universidade de Richmond deu a Zach seu prêmio de estupro de US$ 30.000, o jovem seguiu para se tornar um juiz no Conselho de Honra de sua escola. Então, em 2012, seus direitos civis foram restaurados a ele. Eu reitero: ser branco e rico é fantástico. Eu recomendo.

Então Zach lista suas várias realizações nobres: serviço à comunidade, trabalho voluntário, e assim por diante. Serviço à comunidade é obviamente algo bom, mas também pode ser usado por sociopatas maquinadores para construir poder e influência para possibilitar abusos. O trabalho voluntário de Zach fez com que ele conseguisse uma posição no comitê de seu bairro. Ele também foi apontado como contato de seu bairro com a universidade local (VCU), e ele lidera uma força tarefa para embelezar seu bairro. E outras palavras, ele está ganhando poder e influência. Talvez Zach tenha um lado bom, ou talvez ele esteja aprendendo com John Wayne Gacy. Se ele começar a se vestir como um palhaço, tome cuidado!

Zachary termina sua não-pologia com toda a sua consciência própria em exibição:

Finalmente, para tratar do assunto de forma mais justa: nunca houve uma alegação de impropriedade sexual taxada sobre mim em nenhum evento relacionado ao “Magic: the Gathering”. Àqueles que se sentem inseguros, eu consigo simpatizar. Entendam, porém, que eu sou permitido a ir a shows, fazer trilhas de bicicleta, e interagir com pessoas todos os dias no mundo real, assim como qualquer outra pessoa com o meu estigma criminal.

Acredite quando eu digo: mulheres entendem muito bem que elas têm que compartilhar o mundo com homens sexualmente violentos. É por isso que apitos de estupro existem. Mulheres geralmente não têm escolha, a não ser interagirem com homens grandes e terríveis. É por isso que, quando as mulheres têm escolha, elas tendem a escolher reuniões sociais sem predadores sexuais condenados. É por isso que a Wizards of the Coast te baniu, Zach: para que as jogadoras pudessem abaixar a guarda e se divertirem em paz. A Wizards of the Coast decidiu que fazer suas jogadoras se sentirem seguras é mais importante do que fazer você se sentir melhor com relação à sua condenação por estupro.

Infelizmente, a comunidade de “Magic: The Gathering” discordou dessa decisão. Um número alarmante de pessoas envolvidas na comunidade acha mais fácil sentir empatia por um estuprador do que por uma mulher. Cada postagem sobre Zach nos sub-tópicos de “Magic: The Gathering” no Reddit explode com apoio esmagador pelo estuprador.

Muitos reservam sua ira a Drew Levin, a pessoa que tornou pública a condenação por estupro de Zach, ao invés de a reservarem ao estuprador condenado:

defesa de zach
“Se o linchamento deve ir atrás de alguém, deveria ser Drew Levin e o resto dos ‘profissionais’ que estão tentando transformar a situação numa notícia da ‘Fox News’… Eles não estão tentando fazer nada a não ser sujar a reputação de alguém (que já está bastante suja). Se eles estivessem tentando educar as pessoas sobre os perigos de crimes sexuais, ou tráfico de drogas, ou roubo (ou qualquer outra coisa além daquelas por quais jogadores mágicos de alto nível já foram condenados), seria diferente. Mas fazendo isso de uma forma hipócrita como meio de autopromoção… isso é tão feio quanto na minha opinião. Essas pessoas pagaram suas dívidas à sociedade (ambas a MTG e a ‘vida real’). Essas são águas passadas que estão sendo reviradas com o único intuito de trazer isso à tona.“

Outros defendem que a embriaguez de Zach o absolve da responsabilidade pelo crime. Não é engraçado como um cara bêbado não é responsável por cometer estupro, mas uma mulher bêbada é responsável por ser estuprada?

zach defense 2
“Ele foi condenado por agressão sexual e, francamente, é totalmente possível que seu julgamento tenha sido prejudicado pelo álcool. O fato continua sendo esse: ele serviu seu tempo. até se casou. Eu conheço uma pessoa que foi para a prisão federal por décadas, mas conseguiu seu diploma em Direito e agora é um advogado de defesa de sucesso. As pessoas mudam. Às vezes, a prisão funciona na reabilitação, que é aonde se quer chegar.”

Muitos argumentam que Zachary Jesse pagou sua dívida à sociedade e serviu seu tempo. Lembrete: seu tempo foi três meses numa cela substituta sem glúten, e sua dívida à sociedade foi US$ 30.000 negativos.

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A forma como eu vejo isso é que se o cara tem uma ficha, então isso deve significar que ele já pagou sua dívida à sociedade. Por que continuar a punir a pessoa? Não vai melhorar a situação de ninguém, eu diria até que esse tipo de comportamento de linchamento só serve para deixar as coisas piores. Eles não precisam ser envergonhados depois que já serviram seu tempo.

Esse cara cita uma frase de Serena Joy (uma personagem do romance distópico estupro-tástico de Margaret Atwood, O Conto da Aia), que diz:

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Como mulher, como uma pessoa que passou por violência doméstica e agressão sexual, uma das ideias que me impediu de fazer o registro é a ideia de que isso ‘acabaria com a vida (do acusado)’. Isso me deixa enojado porque reforça aquela ideia: aqui está uma pessoa que serviu seu tempo, que cumpriu todos os requisitos, que parece estar verdadeiramente arrependido e comprometido com o serviço público.

Lembrete: a vida de Zach não está acabada. Na verdade, sua vida é maravilhosa, muito melhor que a de muitas pessoas que não estupraram ninguém. Ele é rico, bem-sucedido e casado. Ser banido de um clube de jogos de cartas não acaba com a vida de ninguém. Ser desconvidado de um evento social é, no geral, uma punição bastante branda por estuprar violentamente o ânus de alguém.

Esse cara culpa a MISANDRIA pela perseguição a Zach:

Esse cara não consegue imaginar porque a Wizards of the Coast baniria um estuprador condenado de campeonatos de “Magic: The Gathering”:

Essa criatura está orgulhosa em ver que sua comunidade se uniu a um estuprador:

Zachary Jesse será aceito novamente? Provavelmente não. Apesar de sua comunidade tóxica, a Wizards of the Coast está bem instruída quanto aos assuntos LGBT e tenta fazer seus eventos menos hostis às mulheres. Reverter sua decisão seria um desastre de relações públicas. Os jogadores injuriados de “Magic: The Gathering” continuarão tuitando enfurecidamente, sacudindo seus punhos com uma ira imponente, provavelmente enviarão ameaças de morte/estupro a qualquer funcionário da Wizards of the Coast que sejam mulheres ou negros, e possivelmente se unirão ao Gamergate. E eles continuarão comprando as cartas e jogando do mesmo jeito. Como um purificador, eu os deixo agora com uma voz de sanidade em meio à selvageria:

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