Divertido e Funcional: Como Os RPGs Podem Curar Sua Mente e Corpo

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Uma pesquisa de 2000 estima que 5,5 milhões de pessoas só nos EUA jogam regularmente RPGs de mesa como Dungeons and Dragons. A jogabilidade oferece um escapismo imersivo com os jogadores se perdendo por horas seguidas, sentados ao redor de uma mesa com outros, interpretando um bardo élfico com uma personalidade carismática, ou lutando com o poder absoluto de um bárbaro anão. Pode ser terapêutico, tanto que um pesquisador, Hawke Robinson, encabeçou a pesquisa para descobrir se os RPGs também podem ajudar as pessoas a ganhar habilidades físicas e mentais em um nível médico.

Robinson acredita que as pessoas com um amplo espectro de deficiências podem se beneficiar do que ele chama de “terapia RPG”: pessoas autistas, pessoas com lesões cerebrais traumáticas, paralisia cerebral ou até mesmo esquizofrenia. Até agora, ele viu evidências das qualidades terapêuticas dos RPGs que vão desde desenvolver habilidades motoras (movimento físico) a aumentar a compreensão da realidade por pacientes esquizofrênicos e diminuir a dependência deles das drogas antipsicóticas.

Brain
(imagem via Allan Ajifo)

Antes de falarmos dos benefícios terapêuticos, é importante observar que uma sessão típica de RPG é acompanhada de uma grande miscelânea de qualidades de melhoria de vida incluindo habilidades sociais, resolução de problemas, aumento de criatividade e aprender a trabalhar em equipe. Mas alguns dos benefícios são menores. Por exemplo, se você está escrevendo furiosamente na folha do seu personagem ou pintando uma miniatura para um jogo de tabuleiro, você está desenvolvendo suas habilidades motoras finas — habilidades que ajudam com pequenas tarefas delicadas como escrever e cozinhar.

Exercitar essas habilidades pode ser útil se você tem uma deficiência que dificulta atividades motoras finas. Muitas pessoas autistas tem habilidades motoras finas ruins, acarretando em dificuldades nas tarefas cotidianas como escrever seu nome claramente — qualquer coisa que melhore essas habilidades é um grande benefício.

LARP, Role Play
(Imagem via RPGresearch.com)

Existe também toda uma ramificação de RPGs que envolvem sair pelo mundo real, vestindo fantasias e usando armas de brinquedo, conhecido como LARP (Live Action Role Play – jogo de interpretação ao vivo), usualmente chamado de Live Action, um sistema onde as pessoas colaboram em um mundo imaginário com os mesmos tipos de regras que se tem no RPG tradicional de mesa.

Quando uma pessoa participa de um Live Action em vez de jogar sentado com papel e caneta, ela tem o benefício extra de praticar habilidades de movimentos corporais amplos (ou motoras grossas). Para pessoas com deficiências físicas, isso é muito importante.

Além das atividades físicas, os RPGs também exercitam o cérebro para atividades cognitivas e situações sociais. Os jogadores praticam interações sociais quando estão jogando RPG ao pedir informações aos aldeões, traçar seu próximo passo com os colegas e praticando diplomacia com os inimigos. Se um jogador se sente socialmente desajeitado indo ao mercado e decide jogar como um bardo com um carisma excepcionalmente elevado (traduzindo para vocês que não são nerds seria “o exato oposto de socialmente desajeitado”), o personagem bardo vai ajuda-lo a praticar a conversação e as habilidades sociais.

Mas a pesquisa de Hawke vai além do efeito benéfico do RPG tradicional e chega aos RPGs especificamente adaptados para ajudar as pessoas com deficiências específicas. Por exemplo, Hawke queria ensinar a algumas pessoas autistas que estavam tendo dificuldades em usar o transporte público como utilizar o ônibus. Sendo influenciado pelos RPGs para smartphones como Habitica, que te recompensam com leveis e itens virtuais pelo trabalho nas suas habilidades, Hawke desenvolveu um sistema para recompensar em pessoa seus jogadores por dominar as habilidades necessárias para utilizar o transporte público.

Tabletop, Gaming
(Imagem via RPGresearch.com)

Os jogadores autistas nessa terapia jogaram como membros de um grupo que combate o crime, e tinham que trabalhar juntos para ler os horários reais de um ônibus. A jornada do Live Action deles envolvia embarcar em um ônibus de verdade e realizar tarefas como pedir informações relacionadas a jornada a um morador de rua. Tarefas simples, mas a jornada deles foi muito mais heroica: eles tiveram que impedir um vilão de iniciar um apocalipse zumbi na cidade.

Depois de algumas sessões, os jogadores levaram as habilidades que eles praticaram no RPG de mesa para o mundo real com o Live Action. Usando uma estrutura de caça ao tesouro, os jogadores buscaram informações sobre como impedir o plano do vilão pessoalmente: eles poderiam impedir o apocalipse zumbi seguindo corretamente certas pistas, ou eles poderiam falhar e ver zumbis perambulando pelas ruas (cortesia de uma zombie walk anual). Porém, primeiro eles tinham que ir de ônibus — um ônibus real — para um lugar onde eles encontrariam outros jogadores.

Hawke enfatizou que ganhar a aventura não era a meta do Live Action. Independentemente da cidade ser dominada por zumbis ou não, os jogadores ganham porque eles estão participando de uma terapia ao apenas jogar. Se você vai de não ser capaz de utilizar o ônibus para ser completamente capaz, você acabou de ganhar um level na vida real.

Gold Medal
(imagem via Chez Mummy)

Hawke continuou explicando que nem todos os RPGS terapêuticos são estruturados como esse, com sua maior ênfase em educação sobre habilidades de vida. Os RPGs criados com terapia para habilidades motoras ou sociais em mente oferecem um senso de segurança. A terapia tradicional pode ser assustadora, afinal, devido aos preconceitos sobre o que ela envolve. A fisioterapia pode ser dolorosa e a terapia em grupo pode ser embaraçoso e te fazer se sentir exposto. A terapia com RPG, por outro lado, chega até você primeiro como diversão. A terapia se esconde sob um jogo, e isso faz com que o remédio seja bem mais fácil de se engolir.

Os RPGs terapêuticos também podem oferecer uma estrutura formal, o que pode ser extremamente benéfico para alguns pacientes, como os que tem autismo ou esquizofrenia. Hawke falou em dois grupos de pacientes com esquizofrenia, no qual um deles apenas recebia os manuais para jogar um RPG de mesa e ficavam por conta própria. No entanto, eles ficaram obcecados em jogar, desconectados da realidade com maior frequência e pioraram no geral.

O segundo grupo jogava com estrutura. Em vez de simplesmente entregar o manual do jogo para os pacientes, os terapeutas davam regras e trabalhavam com eles para manter uma distância saudável do escapismo do jogo.

Players Handbooks, Dungeons and Dragons
(imagem via Cory Doctorow)

Os resultados desse grupo foram fenomenais; a habilidade dos pacientes de separar o fato da ficção aumentou, eles se desconectavam menos da realidade devido à sua nova habilidade descoberta de entrar e sair de seu personagem e, mais notavelmente, o grupo se tornou menos dependente das diversas drogas antipsicóticas necessárias para se manter.

A estrutura se mostrou um elemento chave, e isso é o que realmente diferencia a sessão de terapia com RPG de outros RPGs — não é só jogar; terapia com RPG envolve adaptar cuidadosamente o jogo de acordo com as necessidades dos jogadores, uma estrutura tipicamente oferecida por um “Terapeuta Mestre de Jogo.”

Na ocasião da redação desse texto, não existia nenhum padrão da indústria para definir o que é um Terapeuta Mestre de Jogo. Porém, essencialmente, um Terapeuta Mestre de Jogo será alguém que tem experiência como terapeuta assim como extensa experiência como jogador e como “dungeon master”, isso é, a pessoa que planeja a aventura e administra a jogabilidade. Mais importante, um Terapeuta Mestre de Jogo precisa da habilidade de avaliar as necessidades dos jogadores e mudar o jogo adequadamente para acomoda-los.

As vezes as acomodações vão além das deficiências e habilidades de vida. Por exemplo, alguns RPGs terapêuticos acomodam o gênero de um jogador para ajudar a superar experiências de discriminação baseada no gênero, até mesmo uma comum como ser excluída de jogos por ser mulher. Felizmente, a pesquisa de Hawke inclui um foco em preconceito por gênero nos jogos também.

No Girls Allowed Sign
(imagem via alamodestuff)

Os estudos de Hawke confirmam cordialmente o que muitas jogadoras mulheres e não-binários já sabiam: elas as vezes são excluídas de jogos e frequentemente sofrem com comentários discriminatórios de colegas jogadores. De acordo com a pesquisa dele, 42% de todos os jogadores sofrem comentários depreciativos; isso é, quase metade da população geral de jogadores sofrem com negatividade nos jogos. Apesar de jogos online e jogos de cartas colecionáveis terem níveis superiores de discriminação, Hawke, no entanto, constatou que a reputação do RPG de mesa é manchada com discriminação e preconceito.

Hawke explicou que a maior parte do trabalho em deixar as pessoas confortáveis vem em saber o que as deixou desconfortáveis. Por exemplo, se uma pessoa sofreu com um muita discriminação jogando RPGs online, ela pode ser mais receptiva ao jogos em pessoa, como o RPG de mesa ou Live Action onde a possibilidade de discriminação é menor. Se eles participarem dos RPGs terapêuticos de Hawke, é o trabalho dele garantir que o preconceito seja minimizado. Mas os RPGs terapêuticos quase fazem esse trabalho por ele. Ele constatou que quando as pessoas jogam juntas ao redor de uma mesa, o preconceito acaba sumindo porque elas veem os jogadores como humanos de fato ao invés de jogadores abstratos. Hawke constatou que mesmo jogadores com preconceito contra pessoas trans se tornaram mais receptivas a colegas de equipe trans com o desenrolar do jogo terapêutico.

Há muitas maneiras de ajudar essa terapia inclusiva de gênero, aprovada por nerds a continuar. Se você quer se envolver com a pesquisa como um participante, você pode entrar no website da pesquisa do RPG para se cadastrar através de um formulário online. Se você se qualificar para a pesquisa, será contatado! Se você já é um mestre de jogo, você também pode participar para se transformar em um Terapeuta Mestre de Jogo contatando Hawke para receber o treinamento.

RPG Trailer Mockup
(imagem via RPGresearch.com)

Obviamente, se você está mais interessado em ajudar através do bom e velho dinheiro, está rolando uma arrecadação para construir um trailer de jogos acessível para cadeira de rodas. O trailer levaria a terapia com RPG pela estrada, permitindo que Hawke transporte todo o seu material com facilidade enquanto oferece melhor acesso aos jogos terapêuticos para as comunidades rurais. O GoFundMe para o trailer está aqui. Com a sua ajuda, a terapia com RPG pode se transformar em realidade, junto com uma geração mais saudável e nerd.

(imagem em destaque via Henrique Zambonin)

Publicado anteriormente em 21 de março de 2016.


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