Esses 5 Álbuns Queer Recém-Relançados Eram Gay Demais para os Anos 70 e 80

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“Éramos tratados meio que com desprezo nas gravadoras… você com certeza não ia querer perder seu emprego porque decidiu apoiar um viado, sabe?” — EJ Emmons, metade do Smokey, duo abertamente gay de glam-rock, descreveu a complicada situação comercial deles em uma entrevista para a revista Flood.

Histórias como essas eram comuns, infelizmente, nos anos 70 e 80; músicos abertamente gays eram excluídos da indústria musical e seus álbuns não eram lançados ou não recebiam divulgação. Atualmente, qualquer um com Bandcamp ou Soundcloud pode disponibilizar sua música para o mundo, mas no mundo pré-internet, o apoio de uma grande gravadora era um mal necessário para ser notado além dos enclaves culturais costeiros.

Claro, as pessoas do Brooklyn e da Califórnia por dentro das tendências podem ter encontrado esses álbuns iconoclásticos em seus lançamentos iniciais limitados, mas os ouvintes que não tinham contatos, como jovens gays que teriam suas experiências refletidas e validadas, ficaram para trás.

Ao longo dos últimos anos, várias gravadoras relançaram alguns desses álbuns. Essas coleções normalmente incluem encartes extensos, usando o contexto histórico para reintroduzir esses álbuns como documentos queer históricos vitais. As mudanças de atitude da sociedade em relação à queerness, aliada ao crescimento das publicações musicais de nicho como a Pitchfork e Resident Advisor, criaram uma atmosfera mais acolhedora do que nunca para esses álbuns.

Aqui estão alguns tesouros escondidos que valem a pena de serem redescobertos.

Arthur Russell – Corn (1983, Audika Records)

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Fazendo o pop avant-garde

Arthur Russell foi um artífice musical, navegando pelos mundos díspares da música disco e da música avant-garde com tranquilidade. Sua experimentação sem fim deu a ele a reputação de um santo do artpop; fãs notáveis incluem Sufjan Stevens, Kanye West, e Robyn. Durante sua vida, no entanto, Russell era em grande parte desconhecido fora da cena da música underground de New York. Russell faleceu em 1992 de complicações relacionadas à AIDS, mas os relançamentos da Audika Records ajudaram a dá-lo o maior reconhecimento que ele merecia.

Corn, de 2015, é uma coleção de material não lançado de electro-pop gravado no início dos anos 80. Esse material reflete a abordagem idiossincrática do Russell para produzir. Os teclados lo-fi maravilhosos surgem e somem em seguida, a voz meio Caco, o Sapo do Russell vagueia entrando e saindo da mixagem como uma musa espectral.

As músicas que se destacam incluem “See My Brother, He’s Jumping Out,” uma colagem de pop alegre onde violoncelos e baterias eletrônicas se fundem harmoniosamente e a mixagem alternativa de “This is How We Walk on the Moon” é particularmente reveladora. A bateria vacilante e os vocais cheios de reverberação deram a essa obra uma qualidade apaixonada (e mareada).


Chris Robison — …and his Many-Hand Band (1974, Chapter Music) Chris Robison and His Many Hand Band, gay, queer music, queer albums

Um trovador eclético, assumido e orgulhoso

A maioria dos músicos gays em 1974 estavam no armário — Elton John ou Liberace, por exemplo — e quase nenhum se referia abertamente sobre sua sexualidade em sua música. Enquanto isso, Robison cantava sobre desejar homens sexualmente (“Mocha Almond Boy”), as dificuldades da juventude em fuga (“Down in New York”), e os perigos da terapia de conversão (“Doctor! Doctor!”).

Many-Hand Band é uma mistura estridente de gêneros, de músicas lentas da Motown a músicas com história no estilo do Randy Newman e um toque meio Beatles. Infelizmente, para um artista descaradamente queer como Robison, os prospectos comerciais eram limitados. Originalmente lançado pela Gypsy Frog Records em 1974, Many-Hand Band permaneceu uma curiosidade fora de catálogo até sua reedição em 2009 pela Chapter Music. No encarte do relançamento, ele afirma que a RCA Records o rejeitou porque eles “não queriam outro viado” em seu elenco de artistas além do Lou Reed e do David Bowie.

Um dos momentos mais comoventes do álbum é a música “Looking for a Boy Tonight”, uma celebração franca da homossexualidade. A música foi gravada para que soasse como uma performance ao vivo, sendo adicionado um barulho digno de uma multidão em um estádio. O público fictício consumiu ferozmente a ânsia de Robison de ser assumido e orgulhoso, mas levaram algumas décadas para os ouvintes reais chegarem a esse ponto.


Helot Revolt – In Your Face / Up Your Butt (1992, De Stijl Records)

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Dando todo um novo significado a “rock out with your cock out”

Imagine o riff-rock do Motley Crue, o entendimento político de Dead Kennedys, e o homoerotismo do Village People todos misturados — você pode acabar com algo autoproclamado banda de “metal de cabelo de viado” Helot Revolt.

Helot Revolt foi uma criação do Jack Dubowsky, um compositor gay que escreveu principalmente trilhas sonoras para filmes indies. Sendo assim, o grupo na verdade era uma obra de arte performática disfarçada de banda, revelando em provocações políticas e paródias no estilo Spinal Tap mais do que inovação musical. Eles abriram um show de 1991 em Los Angeles com uma coletiva de impressa falsa, no qual eles anunciaram o segredo de ser uma banda de heavy-metal de sucesso: “Você tem que ser idiota e ter um pau grande”.

Os brincalhões do rock PAUleira só lançaram um EP, mas graças a Dubowsky’s De Stijl Records, o único lançamento deles pode ser redescoberto.

In Your Face / Up Your Butt é uma distorção irônica da fórmula do heavy metal do final dos anos 80/início dos anos 90. “Shirts and Skins”, por exemplo, é uma saudação extravagante aos caras que ficam secando os outros com os olhos na academia. A faixa é tanto uma inversão inteligente de sucessos que objetificam as mulheres como “Cherry Pie” quanto uma musica de hair-metal chiclete.

Enquanto isso, “First Day on Earth” satiriza caras héteros tops de mente fechada (“Você escuta uns viados ouvindo rock, isso é uma piada? Ei, os viados não gostam de disco, tá na hora de você acordar!”). O combo distinto do Helot Revolt de estupidez e pretensão ainda permanece afiado duas décadas depois.


Patrick Cowley – School Daze (1981, Dark Entries)

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Trilhas sonoras com sintetizadores cintilantes para pornografia

Patrick Cowley é mais reconhecido pelo seus singles de synth-pop e remixes para as lendas da disco como Sylvester, mas a sua música mais aventureira é encontrada em suas trilhas sonoras para a empresa de pornô gay Fox Studio. A natureza de tabu dos filmes (com títulos como “Endless Cummer” e “Muscle Up”) limitou a exposição ao trabalho do Cowley, mas em 2013, a gravadora de San Francisco, Dark Entries, relançou suas explorações synth para uma maior audiência.

School Daze está longe do seu típico “bow-chicka-wow-wow” trilha de pornô; a compilação tem desde sintetizadores vibrantes a baterias eletrônicas abafadas, frequentemente na mesma música. Mesmo sem o seu acompanhamento visual original, a música do Cowley é estranhamente evocativa por direito próprio.

School Daze frequentemente dá guinadas em um ritmo hipnótico quente e pesado. Uma exceção é “He’s Like You”, que tem uma camada de breakbeat de funk sobre teclados etéreos. Bipes agudos e graves abstratos surgem no mix enquanto a faixa colapsa em uma coda pós-coito.

“Seven Sacred Pools” começa super inocente com uma melodia cadenciada meio Final Fantasy. Conforme a música (e presume-se que o filme) se intensifica, Cowley adiciona efeitos sonoros de água e baterias reverberantes. A atmosfera misteriosa dá uma pegada voyeurista à música.

Fãs de pioneiros do eletrônico minimalista como Suicide e John Carpenter vão encontrar semelhanças aqui. Cowley sucumbiu à AIDS em 1982, mas seu trabalha vive graças aos relançamentos da Dark Entries.


Smokey – How Far Will You Go? (1973-77, Chapter Music)

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Pervertido do protopunk que faria Lou Reed ficar com vergonha

Smokey foi uma alquimia de protopunk do John Condon, um novato extravagante de Baltimore, e EJ Emmons, um produtor em ascensão. A dupla foi elogiada por várias gravadoras, mas acabaram rejeitadas em razão da sua atitude em ser assumido e orgulhoso disso. Conforme Condon explicou em uma entrevista de 2015 para a Noisey, “Ben Edmonds da Capitol [Records] gostou, mas ele achou que era muito gay”.

Determinado apesar dessa rejeição comercial, Smokey fundou seu próprio selo, a S&M Records, e lançou seus singles. Quase 40 anos depois, a Chapter Music lançou essa extensa compilação.

Os singles deles exploravam as subculturas queer florescentes de Los Angeles com estilo. “Leather” é um rock guiado por piano que narra a introdução de um jovem aos bares de couro. Condon fala em um barítono meio Bowie: “eles amarram ele, eles derrubaram ele… e ele implorou por mais.” “Miss Ray” é um tributo com um toque de blues para uma drag queen que Condon conhecia em Baltimore. “Strong Love” tem uma batida neon glam remanescente do Roxy Music ou da era Diamond Dogs do Bowie.

A faixa central do álbum é uma odisseia disco de 7 minutos chamada “Piss Slave”. Essa faixa poderosa é gloriosamente profana (“Eu quero ser sua privada!”) de uma maneira que prevê os iconoclastas queers atuais como a Peaches.

Ela vai dar início à festa ou esvaziar a pista de dança, dependendo da modernidade do seu público.

(Imagem em destaque via Ian T. McFarland/Flickr)