Por que gays negros são ameaçados por gays negros que namoram outras raças

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Perdoe minha sinceridade, mas eu não sou o tipo de negro que transa com outros caras negros. Eu não costumo ser passivo, apesar de ser muito flexível por vezes. Quando perguntado se eu sou afeminado ou masculino, minha resposta é “sim”. Eu tenho um pau normal e uma bunda normal em tamanho, apesar dos estereótipos de homem africano. Eu não uso a palavra “neg…” de nenhuma maneira e não permitirei que outras pessoas se referenciem dessa maneira. A maioria dos meus amigos mais próximos são homens heterossexuais. E, finalmente, estou parando de namorar outras raças.

Eu estava em meio a uma conversa com um dos meus poucos amigos gays. Ele definitivamente acordou; mestiço, mas identifica mais com a raça negra. Curiosamente, isso é o que eu amo nele, a justaposição inesperada de seu privilégio de pele mais clara, mesmo que no fundo ele seja chocolate escuro. Ele e eu estávamos discutindo o estado triste de nossas vidas de namoro. Aplicativos, encontros on-line, amigos de foda, qualquer tópico.

Ele perguntou se eu namoraria um menino branco, e eu respondi sim. Ele ficou chocado.

Eu não sabia se o seu choque era na minha resposta ou quanta hesitação eu tive em dar. A verdade é que a situação de namoro mais fácil que já tive foi com um cara branco. Nós vamos chamá-lo de Joe. Eu o conheci on-line, meu perfil claramente dizia ativo e o deles (na época) passivo. O que começou como encontro de filme transformou-se na conexão emocional mais fluente que já criei.

Joe me deu uma visão de fora da bagagem emocional do meu homem negro. Em situações de namoro, todos trazemos expectativas conosco. Ativos chamam passivos para sair, pagam a conta, são os cavalheiros da noite. O mais evoluído de nós reverte as expectativas. E ainda o mais evoluído de nós destrói as expectativas completamente.

Nunca vi ninguém foder as expectativas até Joe. Ele me mostrou que ser afeminado ou meio a meio em qualquer nível era OK e autêntico – um sentimento que eu, na época, nunca experimentara com os homens negros.

Mas a ideologia dos “apenas negros” é mais prevalente do que eu pensava. Com os 45 anos na porta e negros e escuros  continuamente sendo discriminados (ou pior), a negritude está mais para um padrão. Devemos estar acordados, incomodados e prontos para quebrar esse paradigma.

Mas por que isso pesa tanto pelas nossas atrações amorosas? O namoro com alguém que tem menos melanina do que eu compromete minha vida?

Eu não me importo. Estou apenas tentando encontrar um homem que me ama e me aprecia. Mas a conversa com o meu amigo perturbou minha mente tanto quanto revelou algumas verdades críticas.

Os homens negros, incluindo eu, são negros antes de tudo. Antes de sermos identificados como uma armadilha ou um bandido, antes de sermos cronometrados como gay ou lidos como sujos, somos negros. E isso é motivo para alguns segurarem sua bolsa um pouco mais apertado, ou nos seguir um pouco mais perto, ou nos atirar mesmo se estamos desarmados. Nossa negritude é uma ameaça para muitos – mas, mais importante, é um emblema e um fardo que cada um deve levar individualmente.

Quando eu conversei sobre esses conceitos muito comigo mesmo e com muitos dos meus amigos negros, a linha é que queremos encontrar alguém que possa carregar esse fardo igualmente. Queremos encontrar um companheiro de vida que entenda as provas sem explicação e que possa carregar a cruz sem hesitação. Queremos ser vistos.

Mas os homens brancos podem estar tão ligados quanto os homens negros? Eles podem entender a nossa situação em um grau que eles podem trazer todo o seu corpo para a luta? Ou nossa resistência é limitada àqueles que se parecem com a gente, em tons como os nossos?

Não se engane, esta revolução é televisionada, e os corpos brancos que entram na luta não são necessários. Mnha negritude é muito mais do que a visão limitada que a branquitude permite. Eu também gostaria de acreditar que alguém pode ser despertado para a causa – ou que pelo menos meu homem será. Mas ainda estou solteiro, então, até que esse homem venha, eu vou manter minha resistência em alerta e meus olhos bem abertos.

 

Jai Makokha é um arquivista cultural, orador público, apresentador, produtor, escritor. Seu siteJaiMakokha.com, é a enciclopédia do negro ativista.