O Que a Estrela de ‘Looking’, Russell Tovey, Não Entende Sobre Ser ‘Machão’

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“Eu sinto que podia ter me tornado muito afeminado, se não tivesse ido para a escola que eu fui. Onde eu achava que devia ser mais durão. Se eu pudesse ter relaxado, andar rebolando, cantar na rua, eu poderia ser uma pessoa diferente agora”, disse recentemente o ator Russell Tovey de 33 anos, gay assumido, em uma entrevista com o The Guardian. “Agradeço meu pai por isso, por não me permitir seguir esse caminho. Porque provavelmente me deu a qualidade singular que as pessoas acham que eu tenho.”

“Qualidade singular” se referia à sua habilidade de sua aparente macheza que fez com que ele conseguisse um papel não-homossexual no drama da BBC que será lançado em breve.

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Alguns dias após o lançamento da entrevista, (e repreensão pública por muitos em resposta aos seus comentários), Tovey tuitou as seguintes desculpas:

“Eu me rendo. Vocês me pegaram. Estou sentado perplexo e entristecido que uma frase inarticulada minha que saiu de forma errada me marcou como o pior gay que existe. Se vocês sentem que eu os desapontei, sinto muito, essa nunca foi minha intenção / Tenho orgulho de ser quem eu sou e tenho orgulho dos outros. Estamos nisso juntos, eu quero que vocês saibam que o que vocês acham que eu quis dizer, não foi bem aquilo.”

Abaixo, o escrito de São Francisco Eric Phanngavong responde ao pedido de desculpas de Tovey e compartilha suas opiniões sobre crescer gay, afeminação, e as consequências do jeito de pensar de Tovey.


O pedido de desculpas de merda do Russell Tovey por seus comentários insensíveis e ignorantes sobre masculinidade e feminilidade falou alto para a cultura sexista e misógina predominante em nossas comunidades gays. Em seu pedido de desculpas, não há uma explicação real ao motivo pelo qual ele está se desculpando.

Nós vivemos na sociedade mais focada em gênero do mundo ocidental e ao nos adaptarmos a essa ideia binária, perdemos contato com nossos indivíduos naturais e com nossa forma inata de ser e de amar. Como uma figura pública, ele deveria ser responsabilizado para seu discurso público. E esse artigo não serve para descreditar sua opinião, mas para adicionar outra dimensão ao assunto controverso.

russell-tovey-3Garotos e garotas são socializados para ajustar-se a um gênero binário mesmo que estudos tenham mostrado que o gênero é construído socialmente e existe em uma série contínua em diferentes culturas ao redor do mundo. Nós iniciamos o ajuste de gênero em nossos filhos cedo, ao diferenciar quais cores eles podem vestir e com quais brinquedos eles podem brincar. Mas nós deveríamos estar nos perguntando, quem está criando essas regras, e essas regras limitam o potencial de nossos filhos?

Mesmo que eu tenha pais que me deram muito apoio e o processo de me assumir foi muito mais fácil para mim do que para alguns dos meus amigos, eu me lembro vividamente de um momento em minha infância onde eu tive que me esforçar para ser ouvido para me sentir humano.

Certo ano no Natal, eu disse à minha mãe enquanto estávamos comprando na Costco que eu queria a bicicleta roxa com fitas nos guidões. Pelo meu pedido, minha mãe comprou aquela bicicleta e eu estava pra lá de empolgado com meu novo brinquedo. Meu pai, contudo, não ficou feliz. Ele começou uma discussão com minha mãe e então me disse que garotos não tinham fitas em suas bicicletas. Meu pai decidiu que eu teria que ficar sem as fitas e as cortou. Eu chorei o dia todo.

Na manhã seguinte, eu acordei me sentido merecedor daquelas fitas e eu queria que meu pai soubesse que eu ia conseguir o que eu queria. Pedi para minhas irmãs mais novas se eu podia ficar com as bonecas velhas delas. Então eu colei as bonecas com fita adesiva nos guidões e levei minha nova bicicleta para mostrar para os meus amigos. Eu nunca me senti tão livre e justificado por quem eu era ou o que eu enfim me tornaria.

Conforme eu olhei de volta para minha casa, eu vi meu pai acenando e sorrindo, não derrotado, mas orgulhoso. Olhando para trás, eu sei que isso foi quando meu pai me aceitou, não como um garoto, mas como um homem; um homem com a coragem para definir sua própria forma de viver e se amar.

Não deveríamos aderir ao curso da masculinidade hegemônica prescrita, mas sim trilhar nosso próprio caminho com integridade de caráter e a coragem para definir nossas próprias identidades. Como homens homossexuais, nós desprezamos nossos irmãos afeminados pela forma como eles agem, quando, na verdade, deveríamos honrá-los por viver sua verdade à face de uma cultura misógina e sexista que alguns de nós perpetuamos sem intenção.

Levantar e manter-se firme por quem você é e pelo que você acredita é o verdadeiro ato de coragem e o que realmente define a essência de um homem. E para terminar com as palavras de um gay bem conhecido, é melhor vocês afeminarem esse desfile.

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