Os 5 Filmes de Terror Favoritos de Acadêmicos de Estudos Queer

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Unicorn Booty, shriek week, ghost, Halloween, scary, terror, emojiExistem um zilhão de artigos com listas sobre os melhores filmes de terror queer de todos os tempos, mas para ser sincero os filmes muitas vezes são super campy, tem produções de baixo custo risíveis ou simplesmente são ruins. Por isso perguntamos a alguns especialistas — acadêmicos LGBTQ que estudam cinema, mídia, estudos queer e, em alguns casos, especificamente filmes de terror queer. Suas oito respostas tem muito em comum – note todas as citações a Hitchcock – mas parece que há claramente uma rainha do baile do terror. Prepare seus o.b..

Darren Elliott-Smith: Carrie, a Estranha (Brian DePalma, 1976)

O Dr. Darren Elliott-Smith é professor sênior de Filme e Televisão na University of Hertfordshire. Ele também tem um livro que vai ser lançado ano que vem chamado Queer Horror Film and Television: Sexuality and Masculinity at the Margins [algo como Televisão e Filmes de Terror Queer: Sexualidade e Masculinidade às Margens]. Aqui está o que ele tem a dizer:

Estou sempre reticente em dizer qual meu filme de terror preferido, conforme você vai provavelmente reconhecer que são muitos. No momento e regularmente pela minha vida, Carrie, a Estranha (Carrie) frequentemente introduz sua mão de morta-viva em minha consciência. Apesar da tendência do De Palma em copiar o Hitchcock: o estilo da direção, o uso de cores e edição são muitas vezes altamente excessivas.

Eu acho que excesso é o que atrai o espectador queer, se orgulhando (e se envergonhando) de um espetáculo ultrajante: o frenesi da matança em tela dividida, a histeria exagerada da Piper Laurie como Margaret White,  o sangue de porco respingou na paleta vermelha, branca e azul do sonho americano. É um filme nostalgicamente campy e cult, sobrepõe gêneros e é um clássico do terror-melodrama-adolescente espetacularmente produzido. A empatia com a sexualidade crescente da Carrie, sua humilhação, a fantasia de vingança – o filme fala claramente para o espectador queer como um conto sobre sair do armário. A vergonha que a Carrie passa ressoa com o espectador queer que teme que “Todos vão rir de você!”

Gustavo Subero: Somos o que Somos (Somos lo que Hay) (Jorge Michel Grau, 2010)

Gustavo Subero é um pesquisador de Estudos Culturais da América Latina e Caribe baseado em Londres. Ele também é o autor de Queer Masculinities in Latin American Cinema: Male Bodies and Narrative Representations [o que seria “Masculinidades Queer no Cinema Latino-americano: Corpos Masculinos e Representações Narrativas”]. O filme de terror preferido dele é um que a gente nunca tinha ouvido falar:

Meu filme de terror preferido é Somos o que Somos de Jorge Michel Grau. O filme se preocupa com as maneiras diferentes em que a figura do monstro masculino, e a noção de monstruoso, pode atuar como uma metáfora de uma crise de masculinidade como a vivida no México contemporâneo.

Quando o patriarca de uma família canibal morre, os filhos adolescentes tem que se encarregar de continuar a prover à família através da preparação de um ritual especial, a caçada de vítimas em potencial e colocando a super importante carne na mesa. Essas novas responsabilidades são ainda mais assustadoras, no entanto, quando você mora em um México que é atormentado pela corrupção policial desenfreada, pela decadência moral nas mãos de prostitutas de rua e um nível de pobreza miserável que se torna o cenário moderno, neogótico em que Grau ambienta seu filme de terror.

O filme argumenta que o machismo não pode mais se separar da noção de desejo pelo mesmo sexo – seja homossocial ou homossexual – e que, em vez disso, a crise de masculinidade só pode ser superada, em sua própria monstruosidade, pela suposição e/ou exteriorização desses desejos. O filme rejeita a heteronormatividade simbólica ao sugerir, no final da narrativa, que a suposição do protagonista de sua sexualidade queer e sua consequente ‘saída do armário’ são os mecanismos pelos quais ele pode se tornar um verdadeiro macho.

David Greven: Carrie, a Estranha (Brian DePalma, 1976)

David Greven é um professor de Inglês da University of South Carolina. Ele também escolheu Carrie, mas por motivos diferentes dos do Dr. Elliott-Smith:

Psicose (Psycho) de Hitchcock com seu senso de um desamparo essencial no coração da modernidade, é o melhor filme de terror já feito. Mas o meu preferido é sem dúvida o filme de Brian De Palma de 1976 Carrie, a Estranha, estrelando Sissy Spacek e Piper Laurie e baseado no romance de Stephen King.

O filme tem uma narrativa mítica, de conto de fadas, de trama de vingança que fala de temas atemporais – o estranho, o excluído, o pária. “O Rejeitado do Universo,” para usar as palavras de Hawthorne. Carrie White, interpretada magnificamente e incisivamente por Sissy Spacek, é o pária com que todos nós podemos nos identificar. Podemos conhecê-la e entende-la e gostar dela, torcer por ela tão intimamente que toda a dor e os terríveis abusos que ela sofre nos machuca também. A queerness do filme surge em parte dessa experiência compartilhada de vergonha e abuso. O estilo de filmagem magistral, voyeurístico, e profundamente emocional de Brian De Palma faz de toda a experiência de assistir a esse filme estranhamente, intimamente pessoal. Os poderes de telecinesia emergentes da Carrie White estão diretamente ligados aos terrores e prazeres de sua sexualidade emergente — e é essa dinâmica que faz o filme ser tão queer. Além disso, ele tem um aspecto sonhador e fantasioso no qual nos coloca em uma posição de desejo e então – fugazmente –alcança um ideal romântico, nesse caso o príncipe sensível, charmoso e loiro Tommy Ross (William Katt).

A outra dimensão queer, estranhamente, é que esse é um filme dominado completamente pelo poder feminino. A mãe louca e, sensualmente, fundamentalista fervorosa de Carrie, Margaret White (Piper Laurie), exige atenção, assim como a professora de Educação Física a Sra. Collins (Betty Buckley), a aspirante a fazer o bem Sue Snell (Amy Irving) cujas tentativas equivocadas de resolver os problemas da Carrie dão andamento à trama de terror, e a vilã adolescente Chris Hargenson, interpretada com aprumo por Nancy Allen. O poder masculino fica em segundo plano em razão dessas mulheres vívidas e memoráveis e dos poderes sombrios que elas dominam. Sra. Collins, longe de ser uma personagem tediosamente solidária, é na verdade bem suspeita. Você se pergunta se ela de fato poderia estar rindo da Carrie no baile! Ela com certeza parece ter uma necessidade excessivamente intensa de punir Chris e pode ser a pessoa que Chris quer realmente punir.

Assim como eu argumento em meu livro Representations of Femininity in American Genre Cinema, o filme reconta a história de Deméter e Perséfone. A famosa sequência do baile é justamente aclamada, mas a sequência no clímax – em grande parte invenção do próprio De Palma – na qual Carrie mata sua mãe empalando-a com utensílios de cozinha através de telecinesia, é tão brilhante quanto. Uma coisa sobre De Palma: você pode estar rindo, ou se sentindo aterrorizado, e de repente você está ferido emocionalmente de maneira profunda. O grito agudo dado por Carrie quando ela percebe que sua mãe está morta e que ela está completamente sozinha – esse é o verdadeiro momento de terror do filme.

Barbara Creed: Alien (Ridley Scott, 1979)

Barbara Creed é professora de Estudos do Cinema na University of Melbourne. Ela escolheu a única ficção científica nessa lista:

Eu acho que o melhor filme de terror de todos os tempos é Psicose de Hitchcock; no entanto, meu preferido é o filme de terror de ficção científica Alien. É basicamente um filme de casa mal-assombrada que se passa no espaço. A performance da Sigourney Weaver como a andrógina Ripley é demais. Alien vira o jogo de estereótipos de gênero: os homens são as vítimas enquanto o herói é uma mulher inteligente e invencível. O design da criatura alien, feito pelo artista surrealista suíço H.R. Giger, e os efeitos especiais do filme são surpreendentes, especialmente as cenas de body horror. A cena em que um astronauta dá a luz a uma criatura pelo seu estômago é uma das mais inesperadas e horripilantes na história do cinema.

Andy Campbell: Deixa Ela Entrar (Let The Right One In) (Tomas Alfredson, 2008)

Andy Campbell historiador independente da arte, curador e crítico que atualmente é Critic-In-Residence na Glassell School of Art Core Program em Houston. Ele também é fã de vampiros, aparentemente:

Deixa Ela Entrar é um dos meus favoritos. O relacionamento entre Oskar e Eli é um dos romances mais confusos e fofos, e a cinematografia de Hoyte van Hoytema captura a paisagem densa e sombria do inverno sueco. A luz parece ser absorvida pela escuridão, forçando todo mundo a ser tornar uma espécie de criatura da noite. Eu gosto de como o filme é generoso com o espectador queer, nunca precisando a sexualidade dos seus protagonistas; em vez disso sugere discretamente que todos estamos descobrindo isso a medida em que vivemos.

Bônus: para quem quiser uma boa leitura, também, tem um capítulo sobre terror em Screening the Sexes de Parker Tyler. Ele foi um crítico de cinema que tinha fortes associações com o Surrealismo Americano e com círculos de poesia. Seu texto (lançado em 1972) foi a primeira exploração a fundo da homossexualidade na história do cinema – muito antes do aclamado O Celuloide Secreto (The Celluloid Closet) de Vito Russo (e eu acho que é muito melhor que o texto do Russo, também. Mas isso é uma heresia para alguns). Tyler tem momentos campy, engraçados e seriamente incisivos. O primeiro capítulo é sobre Mae West e é chamado de algo como “Mother Superior of the Faggots and Some Rival Queens [Mãe Superior dos Viados e Algumas Rainhas Rivais].”

Kristopher Woofter: O Iluminado (The Shining) (Stanley Kubrick, 1980)

Kristopher Woofter é um Candidato a PhD em Estudos de Cinema e Imagens em Movimento na Concordia University além de membro do corpo docente do departamento de Inglês da Dawson College. Além disso, ele é codiretor do Miskatonic Institute of Horror Studies. Ele escolheu um dos nossos filmes de terror favoritos de todos os tempos:

Terror é um gênero tão variado. A obra-prima de Stanley Kubrick O Iluminado poderia ser o que eu destacaria. É um tour de force do estranho. É uma acusação épica e em grande escala do idealismo americano, os danos do capitalismo americano e do colonialismo americano. Ele subverte o mito de que os EUA estavam destinados a se estender de mar a mar, e sugere os efeitos horripilantes de todos esses ideais sobre a família americana. Também estabelece um argumento implícito sobre a alienação dos cidadãos americanos baseada em seus status “queer” em termos de alteridade (isso é, o estado de ser outro ou diferente): raça, gênero, idade.

O Iluminado é um terror sublime, esmagador e bonito em seu impacto. É um filme de terror penetrante. Quando choca, força os espectadores a se conscientizarem sobre uma história horrível reprimida e esquecida que reforça tudo que é “americano”. Leva o conceito de América “assombrada” ao extremo.

Quinn Miller: O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980)

Quinn Miller é Professor de Estudos de Mídia Queer no Departamento de Inglês da University of Oregon. Quinn também queria brincar com a gente — para sempre e sempre e sempre — e listou um monte de filmes bons enquanto se aproximava de sua resposta final:

O Iluminado pode ser a coisa mais próxima de um filme de terror de fato que eu vi. Me assustou quase tanto quanto aquela exibição acadêmica de O Silêncio dos Inocentes que fez meu termômetro do terror disparar. Eu sempre evitei o terror, com tentativas intermitentes de superar meu medo. Eu abandonei O Sistema (The East) com trinta minutos de filme, um pouco antes de se tornar aterrorizante. No Halloween passado eu dormi durante a maior parte de Chopping Mall, apesar de ser do tipo que deixa as pessoas apreensivas. Retrocedendo mais ainda, eu sobrevivi ao Extermínio 2 (28 Weeks Later), no ambiente de origem duvidosa excitando nas profundezas de uma sala decrépita de cinema artístico no centro da cidade que eu fui parar depois do anoitecer em uma cidade que eu não conhecia.

Os thrillers psicossexuais de baixa qualidade são um pilar para mim, e eu não tenho problema com violência, sangue, e coisas que dão nojo, mas meu medo, o feminismo e s frágil perspectiva genderqueer me fazem evitar o lado sobrenatural não satírico e slasher/assustador das coisas.

Quando eu vi essa pergunta pela primeira vez, eu tentei encaixar Triangulo Obsceno (The Dying Gaul) na categoria terror. Eu também reassisti, com as mesmas intenções, Infâmia (The Children’s Hour) — pelo menos até o James Garner aparecer. Mas até o pensamento de trazer uma visão de terror para esses filmes (ou para Gêmeos, Mórbida Semelhança (Dead Ringers), sugestão de um amigo) me assusta; eu fujo, do gênero, apesar da relevante sobreposição no humor, ritmo e caracterização. Eu escutei coisas ótimas sobre a franquia do Chucky. Eu não consigo assistir.

O que me traz de volta ao O Iluminado, um filme que tem me assombrado desde a quinta série. Isso foi quando um amigo desconstruiu agressivamente o filme para mim, colocando uma fita VHS alugada e acelerando para as partes “boas” do que ele alegava ser comédia. Associações debilitantes com esse Iluminado cortado permaneceram comigo, mesmo depois de tê-lo assistido do começo ao fim (o antídoto fracassado da minha mãe para reverter os efeitos assustadores das cenas fora de contexto).

Dada minha aversão ao terror, eu indico Disque M para Matar (Dial M for Murder) como um favorito do humor irônico para suspense de Halloween. Essa revelação pós-Festim Diabóbilo (Rope) conta com Bob Cummings ofuscando Grace Kelly no papel do ícone pop Mark Halliday. É um trabalho em tecnicolor de Hitchcock lançado pouco antes da estreia do segundo sitcom do Cummings.

Brian DePalma and Sissy Spacek
Sissy Spacek em um momento mais descontraído no set de Carrie
(imagem via When We Were Young)

Christopher Mitchell: Carrie, a Estranha (Brian DePalma, 1976)

Christopher Mitchell é professor na Rutgers University e também um fã de Carrie. Quem diria que a telecinética que foi torturada teria tantos admiradores queer?:

É difícil escolher um favorito, mas se eu tivesse que escolher provavelmente seria um que muitos outros vão escolher: Carrie. Não tem realmente nada que eu possa dizer que não tenha sido dito antes sobre esse filme, mas o verdadeiro terror do filme não são as coisas sobrenaturais. São todas as coisas supostamente normais do nosso dia a dia.

Do ponto de vista queer, no qual o normal evoca o horror, Carrie parece ter tudo isso, mas eu vou seguir a regra de três aqui e apontar apenas as seguintes grandes observações, que, novamente, não são muito originais: primeiro você tem o corpo adolescente que se transforma em um objeto do terror no contexto da escola americana (a cena de abertura [da Carrie menstruando] no banheiro feminino), depois há a violência latente no Cristianismo e sua habilidade de transformar a paternidade em filicídio (a mãe da Carrie), e finalmente os ritos sangrentos de uma hierarquia social que estigmatiza os estranhos (quando Carrie é literalmente marcada com sangue de porco).

A melhor parte desse filme de terror é que não é realmente possível identificar um único vilão: Chris Hargenson e a mãe de Carrie não são verdadeiramente vilãs em si, elas basicamente são estereótipos e agentes das culturas maiores (a igreja e a escola) que elas seguem mecanicamente. Eu faria um amigo assistir o filme dizendo “É muito bom!” ou, você sabe, faria ele se sentir intelectualmente envergonhado, porque os acadêmicos são treinados para persuadir as pessoas a considerarem mídias dessa maneira.

(imagem em destaque: Philip Stone como Delbert Grady em O Iluminado; imagem via mikonia blogs)

(esse artigo foi publicado originalmente em 25 de outubro de 2015)

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