Por Que A Marvel Criou Sera, A Super-Heroína Transgênera?

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Não é fácil ser Sera, uma das mais novas personagens do universo Marvel nos quadrinhos e companheira da estrela e homônima do novo título da Marvel Angela: Asgard’s Assassin (Angela: Assassina de Asgard). Você está constantemente se mudando, saltando de dimensões e planos de existência como se fossem pontos de ônibus. Você precisa pensar rápido quando um ataque de asgardianos furiosos (incluindo Thor e Loki) vem atrás de você. Há conspirações cósmicas, batalhas com hordas de inimigos, ter que dividir espaço com os Guardiões da Galáxia, e o fato de que você é a primeira personagem da Marvel transgênera de verdade em sua longa e documentada história. Você sabe. Nada demais.

A jornada da Marvel em território gay tem sido longa e ocasionalmente difícil. Os X-Men, sendo heróis com poderes inatos e não adquiridos por causa de um ataque aleatório de radiação, têm sido vistos como uma metáfora para a discriminação contra os homossexuais. Mas somente em 1992 que a Marvel teve um personagem abertamente gay, o Estrela Polar da Tropa Alfa. O personagem era tecnicamente gay desde a sua introdução em 1983, mas devido ao Comics Code Authority (Código dos Quadrinhos) e à política do então editor-chefe Jim Shooter contra personagens gays, a sexualidade do Estrela Polar permaneceu completamente nas entrelinhas. Em 2012, o casamento do Estrela Polar com o seu namorado foi a capa da Surpreendentes X-Men nº 51.

Alguns personagens gays apareceram desde o Estrela Polar, mas eles são muito pouco frequentes. Os mais famosos entre os fãs gays são provavelmente Hulking e Wiccano dos Jovens Vingadores. Foi revelado que o Shatterstar da X-Factor era bissexual em 2009. E tem a Mística. Você conhece ela. Ela é aquela com pele azul que a Rebecca Romijn e depois a Jennifer Lawrence interpretaram nos filmes. A anti-heroína mutante teve um relacionamento de longa data com a personagem Destiny.

Entretanto, nunca teve um herói assumidamente transgênero nos quadrinhos da Marvel que não seja, assim como a Mística, um metamorfo que pode mudar de gênero de acordo com a sua vontade. Sera é única pelo fato de ter nascido biologicamente um menino e ter começado uma transição consciente para assumir uma identidade feminina. Como a própria diz em Angela: Assassina de Asgard nº 3, no qual revela suas origens, “Eu sempre fui Sera.” É até sugerido que a Angela (a irmã há muito desaparecida de Thor e Loki) prefere Sera com sua identidade feminina.

“Então qual é a grande questão?” você talvez pergunte. Você pode não se importar se um personagem é gay ou hétero ou homem ou mulher ou o que seja. Mas isso é importante por um número de razões. Mais pessoas gays do que você possa imaginar leem quadrinhos, e muitos deles raramente veem reflexos de si mesmos nas históricas que eles leem. Uma coisa é ver um personagem e extrapolar sua história para que você possa se identificar. É outra coisa bem diferente ver um personagem que é em alguns aspectos igual a você. Uma música soa diferente do que o pretendido quando é transposta, o mesmo acontece com personagens na literatura e quadrinhos.

Isso também funciona nos dois sentidos. A própria Marvel está reconhecendo a possibilidade de pessoas trans lerem seus quadrinhos e fornece a elas um personagem com o qual elas possam se identificar. É meio como a edição mais recente de Dungeons and Dragons que finalmente reconheceu que ei, talvez os gays consumam esse produto também, e eles não deveriam se sentir excluídos. Sera não é definida pela sua condição de trans ou pelo seu relacionamento Xena-e-Gabrielle com a Angela mas pelos seus atos e suas promessas. O fato de que a revelação da condição transgênera da Sera só leva três edições para ocorrer e é contada com uma narração com um tom de “ah, e a propósito….”, significa que houve um grande progresso na Marvel desde a história raivosa e dramática de 1992 da saída do armário do Estrela Polar.

O futuro da Sera ainda vai ser escrito. A série da Angela tem uma tiragem limitada com seis edições que acaba em Julho desse ano (a Marvel está essencialmente fazendo um reboot de todo o seu universo com o crossover Guerras Secretas rolando logo após isso). Mas a recepção calorosa da Sera pelo público dos quadrinhos e as críticas positivas ao título dinâmico, emocionante e frequentemente espirituoso que ela estrela aponta para coisas boas tanto para ela quanto para a visibilidade contínua dos personagens gays nos quadrinhos. Então, talvez não seja tão difícil ser a Sera no fim das contas.