Por Que o Hip-Hop Demora a Abraçar os Rappers LGBT?

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Por 30 anos, o hip-hop tem sido uma influência cultural sísmica — da música, moda, linguagem e das posições das pessoas sobre gênero, raça e sexualidade. Infelizmente, a homofobia está intrínseca na formação do hip-hop uma vez que os rappers casualmente usam termos antigays.

No entanto, isso pode estar mudando. Pelos últimos seis ou sete anos, os rappers tem dado a cara a tapa e falado sobre as suas aceitações pessoais de um artista abertamente gay no hip-hop mainstream. Wale, um artista de hip-hop de Washington D.C. disse ao Larry King que “costumava ser um tabu fazer parte da comunidade gay; agora é um tabu falar mal da comunidade gay.”

O Snoop Dogg também mudou sua opinião sobre a aceitação de gays no hip-hop. O rapper da costa oeste não tem nenhum receio com os gays mas ele afirmou anteriormente que é difícil para o hip-hop aceitar artistas gays por causa da cultura hipermasculina do hip-hop. Durante uma entrevista para a apresentadora Carrie Keagan do Big Morning Buzz do VH1, o D-O-Double-G afirmou que a comunidade do hip-hop vai eventualmente aceitar porque há atualmente um influxo de unidade acontecendo na música.

Unidade, Snoop? Eh, talvez, mas com certeza tem havido um influxo de rappers abertamente assumidos que estão deixando sua marca no hip-hop. Artistas como Cazwell e Big Dipper tem causado impacto nas cenas queer underground de New York City, Chicago, Los Angeles e San Francisco com suas letras sexualmente cômicas e visual NSFW. Enquanto letristas de hip-hop de verdade como Le1f, Zebra Katz, Mykki Blanco e Cakes Da Killa tem dado uma voz ao menino gay que gosta do som bruto do rap e do destaque que a música dá à unidade.

Le1f, Katz, Blanco e Cakes estão todos fazendo o hip-hop mais progressista de hoje e como membros da comunidade negra e LGBTQ, esses rappers sabem bem que visibilidade e poder andam juntos. Em uma cultura que raramente, ou nunca, inclui pessoas LGBTQ, os rappers gays são mais do que apreciados. Normalmente ouvimos homens héteros falando um monte de merda sobre comer várias mulheres e sobre seus egos inflados. Agora que os rappers LGBTQ se tornaram mais visíveis podemos ouvir letras como a do Cakes da Killa em “New Phone, Who Dis”:

Você acha que isso é doce, que nem o mel para uma abelha
Eu tenho atraído jogadores e atores ao meu redor
Eu já estive aqui
Eu sou de Jersey que nem o Fetty
Minha ascensão é estável então os groupies estão se agrupando com tudo

Ou a música de amor à melanina, “Swirl” do Le1f:

Olhe essa pele morena
Toda essa pele morena
Eu sei que é excitante
A aura cercando
Minha pele morena maravilhosa
Se você for bonzinho, pode ser que eu deixe você entrar.

Apesar de poder parecer que o hip-hop esteja se afastando de seus costumes arcaicos, ainda ouvimos os rappers atribuírem seu som e letras a uma cultura hipermasculina ultrapassada que exige o uso de “não sou gay” ou “pausa” depois de falar algo que possa parecer gay. A linha de pensamento que alimenta o ódio e violência também é vista em instituições como a política e o esporte — apesar de serem destinados a fazer a comunidade LGBTQ se sentir segura.

Algo interessante a se notar é que tanto a comunidade do hip-hop como a comunidade gay, em sua maior parte, idolatra imagens de hipermasculinidade e fetichiza homens negros machões. Felizmente, os rappers LGBTQ mencionados anteriormente vão contra esses dois atributos — não para provocar, mas porque esses artistas são determinados em se manter autênticos. Na música chiclete “Wavvy” do Mykki Blanco, o rapper afirma:

Eu bato em vocês seus frouxos com minha munheca mole, brother
Que porra que eu tenho que provar para uma sala cheia de caras
Que não estão ouvindo as minhas palavras porque estão olhando para os meus sapatos.

Além disso, Le1f conta a história de gays racistas em boates que ignoram ele do mesmo jeito que motoristas de táxi fazem, em uma de suas músicas mais profundas liricamente, “Taxi:”

Eles sempre dizem que não sou o tipo deles
Eu vejo a maldade em seus olhos
Estou cansado de ser rejeitado
Eu me amo, não vou me ajustar
De verdade, eu estou feliz com
Minha pele, meu cabelo, meus lábios sexy
Você nunca vai saber como que faço gostoso
Você nunca vai saber que eu sou foda

Antes de se tornar uma Kardashian, o Kanye West sentou com o Sway Calloway do MTV News em 2005 para conversar sobre a homofobia no hip-hop. Ele começou falando sobre sua própria experiência e lembrou da pressão para aceitar os padrões de masculinidade que o fez ter uma visão parcial sobre os gays.

West também usou essa entrevista para criticar a comunidade em geral. “O hip-hop parecia ser sobre lutar pelos seus direitos no início, sobre falar o que pensa, e vencer barreiras ou algo do tipo,” afirmou. “Mas todo mundo no hip-hop discrimina as pessoas gays. Para mim, um das normas do hip-hop é ser tipo, “Seu viado, seu gay.”

A autoconsciência e perspectiva em grande escala do West deu um pouco de esperança ao que o futuro guardava para os fãs e artistas LGBTQ de hip-hop mas nada mudou de fato desde então. Sim — temos rappers que são gays dando o que falar no hip-hop, mas a maioria da comunidade do hip-hop mainstream permanece em silêncio. Quanto mais você ignora alguém, mais ele vai sofrer a não ser que ele se pronuncie.

A comunidade LGBTQ precisa de visibilidade, alianças e apoio daqueles em posições de poder e influência e quando alguém como o West ou até mesmo recentemente, Kid Cudi, se pronuncia em favor de um grupo marginalizado que não tem poder ou influência em uma comunidade como a do hip-hop, fala muito alto. A maioria dos artistas de hip-hop vão continuar em silêncio porque eles não se importam, ou não querem ter sua sexualidade questionada — uma ideia que incorpora a fragilidade da masculinidade de um rapper.

(Imagem em destaque de “Goodie Goodies” por Cakes da Killa, dirigido por Ja’Tovia Gary.)