Por Que Um Ministro Metodista Progressista De 79 Anos Ateou Fogo Nele Mesmo

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Na noite de uma segunda-feira, 23 de Junho, 2014, Charles Moore — um reverendo metodista aposentado de 79 anos — dirigiu até o estacionamento de uma loja Dollar General na sua cidade natal, a zona rural de Grand Saline, Texas, se ensopou de gasolina e tacou fogo nele mesmo. Por horas, posteriormente, nem as testemunhas de Moore nem a família dele tinha ideia do porquê.

Moore cresceu em Grand Saline — uma cidadezinha sossegada, que explora a pecuária e a agricultura, de apenas 3.136 habitantes — mas ele partiu em 1954 para estudar em uma universidade. Tirando uma breve estadia logo após seu primeiro divórcio em 1978, ele não tinha passado muito tempo por lá. Pelos últimos sete anos, ele vivia com sua terceira esposa Barbara em Allen, um subúrbio próximo a Dallas, onde ele brincava com seus netos no parquinho local, assistia jogos dos Cowboys com o marido de sua enteada, resmungava sobre a política do Tea Party e escrevia sozinho em seu escritório.

Porém, o que eles não sabiam, é que ele tinha entrado em depressão após sua aposentadoria em 2000. Depois de décadas de pregação em igrejas por todo o Texas, reconstruindo comunidades carentes ao redor do mundo e de ativismo em favor de prisioneiros no corredor da morte, pessoas pobres e membros da comunidade LGBT excomungados, ele escreveu no seu diário, “Eu não estou orgulhoso da inibição [que aqueles anos de trabalho] representa ou dos perigos físicos que foram evitados.” Ele sentia vergonha por estar “completamente inativo” desde a sua aposentadoria e por viver em um subúrbio de Dallas “arquiconservador”, complementando que ele “tem sido nada além de um covarde servil” desde então.

“Minha vida foi, e é, um grande sofrimento por causa dessas questões,” Moore lamentou, “e eu não fiz absolutamente nada por nenhuma delas por muito tempo.”

Moore acreditava que verdadeiros discípulos de Jesus tinham uma responsabilidade ética em atacar as injustiças sociais, políticas e econômicas do mundo. Ele também viveu de acordo com o credo de John Wesley, fundador do Metodismo, que dizia que o indivíduo deveria sempre fazer o bem, mesmo que isso envolva adotar posições impopulares ou ser rejeitado por seus parentes e amigos e pela comunidade. Mas depois de uma vida trabalhando como um progressista dentro da hierarquia conservadora da Igreja, Moore se cansou e não sabia mais como cumprir seu propósito sem uma igreja ou congregação para liderar.

Ele considerou se levantar e gritar sobre as questões sociais durante as cerimônias da igreja “como os profetas do passado.” Ele também pensou em protestar em público só para ser preso, mas achou que qualquer das opções poderia envergonhar sua esposa e sua família.

“Eu sou uma alma paralisada… qualquer caminho que eu tente parece fechado para mim,” ele escreveu. “Contudo,” ele continuou, “tem uma coisa que eu ainda tenho total controle: que é, o modo da minha morte.”

Ele leu um artigo do New Yorker, de julho de 2013, chamado “Em chamas: Uma onda de autoimolação se espalha pelo Tibete” sobre centenas de budistas tibetanos contemporâneos que se imolaram para protestar contra o domínio chinês. O pensamento inflamou sua imaginação, apesar dele ter considerado o poder social do fogo bem antes disso: O símbolo oficial da Igreja metodista tem duas chamas, cada uma representa as encarnações de Deus através do fogo. No Antigo Testamento, Deus fala com Moisés através de um arbusto em chamas e no Novo Testamento, Deus concede fluência em línguas estrangeiras aos apóstolos durante o Pentecostes enquanto aparecia como línguas de fogo sobre as cabeças deles. Em ambos os casos, as chamas expressam a vontade de Deus.

Moore também tinha uma admiração por William Tyndale, um erudito protestante do século 16 que morreu estrangulado e foi queimado na fogueira por traduzir a bíblia para o inglês comum. Em uma nota de 2013, Moore escreveu, “Suas últimas palavras foram, ‘Oh Senhor, mude o coração do Rei da Inglaterra.’ Menos de um ano depois havia uma bíblia com leitura vernacular em todas as igrejas da nação.” Pelos cálculos de Moore, a dor da autoimolação duraria apenas alguns momentos e possivelmente atrairia atenção mundial para qualquer causa que ele escolhesse.

Mas se matar de um modo tão dramático deixaria, sem dúvidas, consequências para seus parentes e amigos. E se a polícia descobrisse seu plano de antemão e mantivesse ele na cadeia ou em um hospital psiquiátrico? E se ele tivesse contado a um membro da família e a polícia posteriormente o prendesse por não impedir o seu ato horrendo? E se ele sobrevivesse à essa horrível queimadura?

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O famoso e também infame Reverendo Metodista aposentado Charles Moore. (imagem via William Renfro)

A ideia perseguiu Moore, e ele escreveu que os anos seguintes foram como “um longo Getsêmani” de solidão excruciante — uma referência ao jardim onde Jesus rezou sozinho na noite anterior à sua crucificação. Nessa reza, Jesus professou que ele morreria de boa vontade se servisse à vontade de Deus; Moore sentia o mesmo.

Ele escolheu uma data para seu fim flamejante, e quanto mais se aproximava ele se tornava mais distante e irritável com a família e amigos, culpando seu humor sombrio pelas histórias do noticiário e dor no pé. Mas ele já tinha se decidido. Imolação era a única forma de morrer que permitiria que ele chamasse atenção pública enquanto expressava uma maior intolerância contra a injustiça — era o único jeito que ele poderia morrer por um propósito de uma maneira que poderia ser comprovada. E se ele tivesse sorte, também seria a última coisa que ele faria.

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Autoimolação não é como outras formas de suicídio. Responde por menos de 1% de todos os suicídios nos EUA e acontece com muito mais frequência como forma de protesto político em países asiáticos em desenvolvimento do que lá. Por exemplo, quando o vendedor de rua turco de 26 anos Mohammad Bouazizi ateou fogo em si mesmo em Dezembro de 2010, seu protesto contra o tormento causado por funcionários públicos corruptos ajudou a inflamar a Primavera Árabe. Em contraste, quando Moore ateou fogo em si mesmo quatro anos depois, somente cerca de 45 websites publicaram a história; o Tyler Morning Telegraph perguntou de maneira diminutiva se ele era um “Louco ou Mártir”. Tirando uma nova página no Wikipédia do Charles Moore, pouco aparentemente mudou como resultado.

Imolação também é muito mais dolorosa do que outras formas de suicídio. Os 900º a 1250º C das chamas rapidamente fritam a pele, queimando mais quente e mais profundo nas roupas. Quando a camada subcutânea da pele rapidamente se encolhe, ela se rasga, expondo a gordura corporal e alimentando as chamas ainda mais. A labareda consome todo o oxigênio, fazendo que os pulmões parem enquanto eles lutam por ar. A maioria das pessoas desmaiam ou morrem em 45 segundos devido a fumaça de monóxido de carbono.

Sobreviventes tem que aguentar meses (ou até mesmo anos) de hospitalização e cirurgias de transplante de pele para se curar devidamente. Durante esse período, os enfermeiros da unidade de queimados esfregam regularmente o paciente para retirar a pele podre, esfoliar qualquer tecido morto e então espalhar antibióticos nos músculos expostos e na nova pele em formação do sobrevivente — a dor é agonizante e frequente. Sobreviventes também têm que lidar com o trauma psicológico, cicatrizes extensas e deformação permanente, fazendo com que a morte seja quase preferível.

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Capela Perkins na Perkins School of Theology (Faculdade Perkins de Teologia)  da Southern Methodist University, o local proeminentemente rodeado por prédios de tijolo marrom a qual os estudantes se referem como “Quadrangulo de Deus”. (imagem via Daniel Villarreal)

Moore tinha originalmente planejado atear fogo em si mesmo em 23 de Junho de 2013 em algum lugar do caminho de pedestres entre os prédios de tijolos marrons e a capela branca da faculdade que estudou e se formou, a Perkins Theological Seminary (Seminário Teológico de Perkins) da Southern Methodist University (Universidade Metodista do Sul) no Dallas. Ele chegou pela primeira vez na SMU em 1954 — um pobre recém-casado e jovem aspirante a ministro de uma pequena cidade do Texas — e se formou do seminário em 1959 com seu Bachelor of Divinity (Bacharelado de Teologia). A experiência deixou uma impressão duradoura nele. Em cartas, ele chamava Perkins a “casa da alma” dele e uma instituição revolucionária onde “transformadores do mundo são formados.”

Mas com o passar das décadas, suas visões sobre a SMU e seu estilo de Metodismo tinham se azedado. Em uma carta de 22 de Junho de 2014 intitulada “Meu apelo de vida/morte para a Southern Methodist University e outros”, Moore acusou William Lawrence, o reitor do Perkins Seminary, de fazer lobby entusiasticamente para construir o novo Centro Presidencial George W. Bush no campus apesar de Bush ter executado 150 presos durante seu mandato de governador do Texas.

A Igreja Metodista é contra a pena de morte e Moore a considera uma medida classista, racista, custosa e ineficaz de dissuadir o crime, equivalente a uma punição bárbara e cruel. Como um organizador da Coalizão do Texas para Abolir a Pena de Morte, ele alegou ter protestado contra as execuções pelo menos 100 vezes na mansão do governador do Texas. Assim, um prédio em homenagem a Bush parecia para ele uma grave contradição aos objetivos metodistas da universidade.

Moore também via a SMU e o Metodismo em geral, decepcionantemente, como homofóbicos. De 1990 a 1999, Moore usou sua posição como ministro da Grace United Methodist em Austin para defender as pessoas LGBT. Ignorando a desaprovação da Igreja da “prática da homossexualidade” — e as ameaças do bispo local para afastar Moore por votação — Moore regularmente pregava por compaixão radical por pessoas gays, lésbicas, bissexuais e transgêneras; ele até mesmo realizou cerimônias de “união santa” para casais homoafetivos que não podiam casar legalmente na época; ele abriu sua igreja para o coral gay Capital City Men’s Chorus e para a associação local Parents and Friends of Lesbians and Gays (Pais e Amigos de Lésbicas e Gays) (PFLAG).

Em 1995, ele ganhou atenção nacional por sua greve de fome de duas semanas contra a posição antigay da Igreja durante uma reunião local de bispos internacionais. Moore acabou comendo depois que a conferencia liberou uma declaração encorajando igrejas Metodistas a serem “hospitaleiras a todos,” algo que Moore considerou uma pequena mas significativa vitória.

E ainda Moore se sentiu preocupado com um ranking da Princeton Review de 2011 que colocou a SMU como o décimo segundo campus mais anti-LGBT nos EUA. A honra questionável o fez lembrar de Gene Leggett, um colega de classe talentoso e também ministro que a Igreja Metodista excomungou em 1971 por ser assumidamente gay. Moore se sentiu enojado que a igreja Metodista tenha usado os mesmos procedimentos de excomunhão contra Leggett que eles usam para ministros acusados de estupro, pedofilia e extorsão. Também o perturbou que em 2013, a Igreja excomungou o Reverendo Frank Schaefer por celebrar o casamento homoafetivo de seu próprio filho.

Moore queria que a Igreja restaurasse a posição de Leggett e se desculpasse por sua postura antigay — de fato, Leggett dedicou o resto da sua vida para essa conquista. Mas Leggett morreu em 1987, ainda excomungado, e até hoje a Igreja Metodista proíbe casamentos entre pessoas do mesmo sexo e não permite que qualquer “homossexual praticante autodeclarado” sirva como ministros ordenados.

Finalmente, Moore se preocupava que a universidade, e o mundo em geral, não estava fazendo o bastante para abordar as desigualdades raciais e econômicas dos EUA. Moore passou sua carreira defendendo os negros e as comunidades pobres, e a reeleição de 2012 do Presidente Obama deu esperança a ele de uma nova era de justiça racial e econômica. Mas seu otimismo rapidamente desapareceu com o crescimento de apoiadores racistas do Tea Party, especialmente Ted Cruz, um senador influente do Tea Party do Texas, que Moore considerava um demagogo. Com a decisão de 2013 da Suprema Corte revogando a Lei do Direito ao Voto de 1965 e mais leis de identificação do eleitor cassando o direito de votar de negros, a segunda década do novo milênio começou a parecer mais para ele como a época anterior aos Direitos Civis quando ele começou a pregar.

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Charles Moore pregando na Igreja Metodista de St. Stephen em Boston. (imagem via William Renfro)

Moore defendeu a integração social em 1959 como ministro da First United Methodist Church em Carthage, cidade do leste Texas — em troca, diversos congregantes o chamaram de comunista. Mais tarde naquele ano, ele se recusou a fazer “blackface” (pintar o rosto de negro) no “nigger minstrel” (menestréis que retratavam os negros como ignorantes e sem educação, o que contribuiu para a propagação de estereótipos em relação aos negros) da igreja. Então em uma noite, quando um diácono perguntou a Moore se ele “deixaria um preto entrar na sua casa,” Moore respondeu, “Claro, que eu deixaria,” e o diácono sugeriu que Moore arrumasse suas malas e se mudasse.

Em uma outra noite, enquanto visitava a casa de um paroquiano, uma vândalo revistou a biblioteca do escritório de Moore, roubando diversos livros sobre raça. Sua esposa Patricia começou a receber telefonemas estranhos de homens dizendo para eles irem embora da cidade. Eles foram por fim, se relocando em San Antonio por volta de 1961 para que ele servisse como pastor da Jefferson Methodist Church e St. Matthew’s Methodist Church, mas também lá, os líderes da igreja de St. Matthew não queriam que Moore convidasse um coral somente de negros para cantar no santuário deles.

Moore eventualmente se matriculou em um programa de doutorado de teologia na Boston University e na Harvard Divinity School (Faculdade de Teologia de Harvard) em 1965, mas ele saiu dois anos depois para reconstruir os guetos de Chicago com um grupo chamado Ecumenical Institute (Instituto Ecumênico). Quando a família dele chegou a zona oeste de Chicago em 1968, após o assassinato de Martin Luther King, Jr. em Abril e dois dias de manifestações que resultaram em 11 mortes, 500 feridos, mais de 2.150 detidos, 125 focos de incêndio e U$ 10 milhões em prejuízos. Os cidadãos negros da cidade tinham acabado de começar a desmantelar leis racistas de zoneamento que os mantiveram segregados por décadas em guetos superlotados com poucos serviços sanitários, poucas áreas de recreação e altos índices de crime e brutalidade policial.

Pronto para ajudar, Moore passou seus quatro anos seguintes com o Ecumenical Institute construindo um centro comunitário, organizando oficinas da família e de carreira e recrutando outros para a causa. Ele deixou o instituto nove anos depois, mas continuou trabalhando em favor das famílias carentes até os anos 90 fundando o South Austin Assistance Ministries, uma organização de quatro igrejas que compartilhavam seus recursos para ajudar os pobres locais — a organização existe até hoje, agora com 18 igrejas filiadas.

As cartas de Moore para a SMU não eram meros desabafos de queixas — ele planejou cada uma como notas suicidas. Na primeira, datada de 23 de Junho de 2013, Moore esperava que sua imolação no campus poderia compelir o presidente anterior, George Bush a apoiar uma lei acabando com a pena de morte no Texas e encorajar o bispo Metodista regional a homenagear postumamente o ministro gay excomungado Gene Leggett por sua honestidade, bravura e serviço.

Mas Moore não conseguiu ir até o fim com isso. De acordo com relatos ele comentou em uma nota de 19 de Julho, “Não é fácil contemplar, e muito menos executar, o fim da sua vida,” e então escreveu uma segunda carta para Bush e o reitor de Perkins em 2 de Agosto. Mas ele não conseguiu se compelir a se suicidar. Um ano passou, então a ideia se reacendeu, com uma nova esperança de destacar questões levemente diferentes.

Em uma carta de 16 de Junho de 2014, Moore escreveu que esperava que a sua morte fizesse que o Perkins Seminary e a Igreja Metodista buscassem os objetivos progressistas incluídos nos Princípios Sociais do Metodismo: especialmente, a abolição da pena de morte, proteção de leis ambientais e os direitos reprodutivos das mulheres, oposição à guerra e apoio a educação pública gratuita e estruturas fiscais favorecendo os pobres. Também, para atrair atenção para o racismo contemporâneo, Moore queria acabar com sua vida em 19 de Junho ou “Juneteenth” — o feriado que comemora a emancipação oficial dos escravos no Texas — mas ele ainda não conseguia.

Ele digitou uma quarta nota suicida no dia seguinte, declarando, “Eu fiquei muito desapontado ontem que minha coragem falhou…” Em 20 de Junho fazia 50 anos que três trabalhadores dos direitos civis negros fora mortos queimados no Mississippi pelo KKK; ele achou que seu suicídio poderia ajudar a “manter viva a memória desses três homens valentes.” Mas ele hesitou mais uma vez, escrevendo no dia 21, “Outro dia passou — outro fracasso — mas é difícil encarar as chamas.”

Em uma nota suicida de 22 de Junho, Moore reafirmou sua decisão de acabar com sua vida na SMU, dizendo, “Eu amo essa faculdade e sei a grande influência que poderia ter…” Apesar disso, ele acrescentou, “Eu lamento profundamente… em criar uma cena tão horrenda nesse belo campus.” Ele prometeu “somente se machucar e não danificar mais que o necessário a beleza da SMU.” Porém mais uma vez, ele não conseguiu.

Se ele tivesse tentado em qualquer das cinco datas planejadas, não se sabe se ele teria sucesso. Somente uma fração dos estudantes do seminário e da faculdade estaria no campus durante o período de escola de verão apesar de que a segurança poderia perceber seu plano e impedi-lo. É uma especulação irrelevante porque no dia seguinte, Moore finalmente prosseguiu com seu plano.

Mas em vez de se imolar na SMU, ele dirigiu seu Volkswagen hatchback por 140 km para a sua cidade natal de Grand Saline e lá se incendiou.

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Leva-se cerca de uma hora dirigindo em direção ao leste para chegar de Dallas à Grand Saline. (imagem via Eric Dickson)

As rodovias ligando a SMU e Grand Saline cortam um trecho longo e sinuoso pelas pequenas cidades do Texas com nomes como Sunnyvale, Forney e Myrtle Springs. Outdoors de Dairy Queen, reboques fechados com fogos de artifício e postos de gasolina dilapidados alinham as vias laterais enquanto torres elétricas gigantes passam por cima da interestadual até as planícies, desaparecendo uma atrás da outra com a distância.

Finalmente, um longo trem surge de trás dos pinheiros do leste do Texas em direção à praça da cidade de Grand Saline, um distrito dos anos 50 assombrado por fachadas de lojas empoeiradas: tem o restaurante Jalapeños Tex Mex Cafe (atualmente fechado e à venda), o RexAll Drugs Old City Pharmacy, Coffeeshop and Museum (Farmácia, Cafeteria e Museu) (tudo um lugar só) e o Genesis Home Care & Hospice (Atendimento Domiciliar & Hospício) — a sua placa diz “Um Novo Começo” sobre o seu toldo verde esfarrapado, com a estrutura metálica aparecendo.

A uns quarteirões de distância, próximo ao memorial militar na beira da estrada — um grande tanque, uma âncora enorme e jatos azul-e-amarelo decorativos — se encontra o Round-Up, uma combinação de pista de patinação e sorveteria com as palavras “EM DEUS AINDA CONFIAMOS” pintadas em vermelho , branco e azul acima das bandeiras do Texas, Americana e Cristã.

A cidade inteira fica sobre um domo de sal montanhoso de aproximadamente 16.7 km³ de largura. Por centenas de anos, os nativos americanos do povo Caddo fervia a água das lagoas e córregos salgados da cidade, coletando os cristais de sal e os vendendo na feira de Nacogdoches a 191,5 km de distância. Então por volta de 1844, um monte de colonos brancos chacinaram as tribos locais, e dois agrimensores brancos compraram o terreno e construiram uma indústria a partir do processo de evaporação do sal das tribos. Nos dias atuais, Índios são apenas o mascote da escola local e a Morton Salt opera a fábrica de processamento de sal da cidade, desde 1920.

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Durante o pôr do sol em Grand Saline, uma placa longa da Dollar General acima do estacionamento onde Charles Moore ateou fogo em si mesmo. (imagem via Blair Rowan)

Próximo ao centro da cidade, você encontra o estacionamento onde Charles Moore acabou com sua vida, um lugar sem nada de excepcional, revestimento com asfalto quebrado com letreiros altos da Dollar General, Economy Drug e o salão SophistiKutz, um caminhão parado no canto, o motorista ausente.

Às 10:30 da manhã nublada de 23 de Junho de 2014, a empregada do SophistiKutz Mallie Munn viu um homem grisalho encostado no carro dele e observando o tráfico. Por todo o dia ela o via sempre que olhava pela janela. Ela achou que não era nada demais — todo tipo de gente fica pelo estacionamento; é conhecido como Bear Grounds e é um dos únicos lugares em Grand Saline onde você pode vadiar sem que ninguém reclame.

Mas por volta das 3 da tarde, a temperatura tinha subido para agradáveis 32°C. Munn observava curiosamente enquanto o senhor ficou plantado sobre seu porta-malas, andou até a Dollar General, descansou perto de um engradado do lado de fora, e então voltou para o seu carro. Ela pensou, Talvez ele esteja esperando por alguém para comprar seu carro.

Por volta das 5:15, ela, sua colega de trabalho Angi McPherson e seus dois amigos, Dewayne Mosley e Steven Goggans, conversavam sentados no meio-fio do salão, observando enquanto o senhor retirava uma pequena almofada e um container vermelho de plástico do seu porta-malas.

Ele colocou a almofada no meio do estacionamento e se ajoelhou sobre ela; Munn franziu o rosto: ele realmente trouxe uma almofada de jardinagem só para arrancar ervas daninhas nesse estacionamento aleatório? Ele então levantou o container sobre a sua cabeça e se ensopou com um líquido: derramando sobre sua perna esquerda, nos seus ombros, nas suas costas, na parte de baixo do lado direito, e então em círculos sobre seu peito e rosto, balançando até a última gota.

Isso não pode ser, de maneira nenhuma, o que eu to pensado, Munn pensou.

Ele jogou o container pro lado e colocou sua mão no bolso direito da sua calça, puxando um isqueiro de churrasco. Munn jura que ela ouviu o “click”. De repente, ele foi tomado pelas chamas, a sua calça e sua camisa de manga curta em combustão, seu contorno carbonizado visível na chama viva. Munn ouviu um baixo gemido de dor vindo das chamas crepitantes — um som que parecia mais emanar do seu corpo do que da sua boca.

O homem em chamas levantou da sua almofada, deus poucos passos, se virou ligeiramente e então caiu. Imediatamente, Goggans correu a toda velocidade, arrancando sua camisa de botões para tentar, sem sucesso, abafar as chamas. Munn correu para dentro para pegar o extintor de incêndios enquanto McPherson ligou para o serviço de emergências, 9-1-1.

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O estacionamento onde Charles Moore ateou fogo em si mesmo. (imagem via Blair Rowan)

“Nós precisamos de ajuda aqui agora,” McPherson falou para a telefonista. “Tem um homem pegando fogo!”

“Como assim?” a telefonista perguntou.

Munn achou um extintor, mas de repente ela se deu conta de que nunca tinha usado um, e que também ela não queria, particularmente, ver o homem derretendo do lado de fora. Então ela trocou com a McPherson pelo telefone.

“Alô?” a telefonista chamou, “O que tá acontecendo?”

“Ele está pegando FO-GO!” Munn repetiu. “Pegando fogo. Ele. Pegando fogo.”

“Ok, vamos enviar um caminhão de bombeiros e uma ambulância.”

Munn informou  o endereço e a telefonista disse, “Alguém vai chegar aí logo,” antes de desligar. Munn olhou fixamente para o telefone sem acreditar. McPherson voltou para o salão.

“Eles desligaram na minha cara!” disse Mann. A telefonista não perguntou se mais alguém estava ferido ou em perigo. McPherson ligou de novo, mas a telefonista disse que ela já tinha mandado ajuda e desligou na cara dela também. Olhando da janela do salão, os homens já tinham apagado as chamas de Moore — as roupas dele tinham sido consumidas pelo fogo, revelando por baixo um corpo derretido.

Munn não conseguiu sair. Ela assistiu da janela até que a ambulância finalmente levou o homem embora. Depois, ela saiu até o meio-fio, se sentou, começou a fungar e tentou o máximo não chorar. E se eu tivesse ido falar com ele? ela se perguntou. Era para eu ter parado isso de alguma forma?

Enquanto o sol se punha, Munn e as outras três testemunhas sentaram quietamente no estacionamento, observando em silêncio enquanto uma multidão de 25 pessoas se juntou, conversando através de sussurros horrorizados sobre o que tinha acontecido.

Nos dias seguintes, os habitantes da cidade iam até o SophistiKutz pressionavam Munn para obter informações, dizendo coisas como, “Eu sinto muito,” “Você é muito nova para ter que ver uma coisa dessas,” e “Você devia se consultar com um psicólogo.” A condescendência a irritava.

Apesar dela nunca ter visto algo tão horrível, ela sentia mais tristeza e raiva do que choque e autopiedade: Tristeza que o homem sentiu a necessidade de se matar e raiva por causa das perguntas sem respostas que ele tinha deixado para trás. Por que ele tinha ido para Grand Saline — na frente do salão dela especificamente — só para se matar?

Durante toda a semana seguinte, Munn e as três testemunhas passaram as noites sentados em frente ao SophistiKuts, olhando fixamente para o estacionamento e discutindo o que tinha acontecido. Munn é a única ainda aberta a falar sobre o que aconteceu com a mídia. Não muito tempo depois, ela ouviu falar da nota suicida final de Moore — a que ele escreveu especificamente para Grand Saline que ninguém tinha lido.

(image via Blair Rowan)
Uma vista para a First United Methodist Church de Grand Saline em um dia nublado (imagem via Blair Rowan)

Às 7:30 da noite, Kathy Renfro, a filha da mulher atual de Moore, recebeu um telefonema. Seu padrasto aparentemente tinha tentado se suicidar e estava sendo transferido por avião para o Parkland Hospital em Dallas. Ela e seu marido, o Reverendo aposentado William Renfro imediatamente deixaram a casa deles em Austin para encontrar Barbara, a esposa de Moore, em Allen, no Texas.

Enquanto estavam no carro, William pensou nos momentos que ele passou com Moore durante os feriados: quando eles não estavam assistindo futebol americano, eles entravam em intensas discussões políticas e teológicas. Até onde ele sabia, Moore amava Barbara e não estava passando por nenhum problema financeiro, então por que ele teria tentado cometer suicídio? A possibilidade de autossacrifício cintilou brevemente na mente de Renfro, mas desvaneceu. Claro, ele podia imaginar Moore se matando por uma causa maior, mas ele nunca pensou que ele realmente faria isso.

Moore chegou no Parkland Hospital com queimaduras de terceiro grau cobrindo mais de 85% do seu corpo — o médico disse que ele nem parecia mais humano. O choque o colocou em coma, e enquanto ele estava deitado na unidade de queimados conectado a um respirador, o médico informou à esposa dele Barbara e ao seu filho mais novo Guy que ele provavelmente não sobreviveria àquela noite. Ela sabia que Charles não iria querer ser mantido vivo por aparelhos, então ela e Guy rezaram no quarto — o corpo de Moore escondido debaixo de um lençol. Eles então desconectaram ele. Quarenta e cinco minutos depois, o Reverendo Charles Moore estava morto.

Renfro entrou na casa de Moore e imediatamente começou a procurar por pistas. Ele examinou atentamente o quarto, a sala e o escritório do Moore — um quarto lateral cuja janela dava vista para o parque onde ele costumava brincar com seus netos. Sobre o aparador onde Moore escreveu suas muitas homilias, Renfro viu uma conspícua pilha de pasta de papel pardo. Ao abrir uma, ele descobriu uma coleção de anotações em diário digitadas, um artigo do New Yorker sobre autoimolação e algumas notas de suicídio incluindo uma que Moore tinha digitado naquela manhã, intitulada “Oh Grand Saline.”

A carta recontava o racismo que Moore experienciou na cidade do leste do Texas. Quando era um garoto ele tinha ouvido “os insultos raciais habituais”; ele nunca tinha conhecido uma pessoa negra até a faculdade. Por volta dos 10 anos, ele conheceu um homem que se chamava de “Uncle Billy” (Tio Billy) que se gabava para Moore e seus amigos sobre querer “matar os pretos” e pendurar as cabeças deles na região da cidade chamada Poletown. Moore alegou que a igreja local começou a exclui-lo das atividades depois que ele expressou apoio para a decisão da Suprema Corte de integração das escolas. Ele reclamava da escassez de diversidade racial da cidade e o envolvimento histórico da Ku Klux Klan nas redondezas.

A carta dele concluiu:

“Os Estados Unidos (e Grand Saline proeminentemente) nunca realmente se arrependeu das atrocidades da escravidão e suas consequências… Muitos Afro-americanos foram linchados por aqui… enforcados, decapitados e queimados, alguns enquanto ainda estavam vivos. A visão me assombra muito. Então, nesta data tardia, eu decide me juntar a eles dando meu corpo para ser queimado, com amor no meu coração não só por eles mas também pelos feitores de tamanho horror — mas especialmente pelos cidadãos de Grand Saline, muitos dos quais foram muito gentis comigo e outros que possam se sentir comovidos para mudar a situação aqui.”

Dificilmente pode-se verificar as experiências de Moore mais do que perguntando para ele sobre elas. Ele cresceu durante a época anterior ao movimento dos direitos civis dos negros, quando as cidades do leste do Texas ainda tinham banheiros e salas de jantar “somente para pessoas de cor”. Além disso, ele e outros locais lembram de uma placa infame alertando “Pretos: Não deixe o sol se pôr sobre vocês em Grand Saline.” Outras “cidades do pôr do sol” da época tinham placas semelhantes, mas enquanto os locais debatem a existência da placa, ela continua arraigada na imaginação do público de qualquer jeito.

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Um marcador histórico para a região da Poletown de Grand Saline. Apesar da lenda local dizer que o nome da região vem da cabeça de um negro ter sido pendurada em um poste lá, o marcador histórico explica que o seu nome vem das estacas de madeira que os primeiros residentes da área usavam para construir abrigos. (imagem via Eric Dickson)

Como parte da zona do algodão, o condado de Van Zandt tem uma história de escravidão que inclui a Plantação Roseland — uma fazenda de algodão de aproximadamente 1214 hectares que tinha de 57 a 100 escravos — 40,2 km de Grand Saline. Logo após a emancipação deles em 1865, dois homens negros do condado de Black Van Zandt foram espancados com tanta intensidade por seus antigos senhores que eles permaneceram com o rosto para baixo e sangrando por horas depois.

A região ganhou um Departamento de Libertos para ajudar a proteger os cidadãos negros em 1867, mas mesmo assim, era localizado a 56,3 km de distância em Tyler, e seus soldados não tinham cavalos e somente um mosquete com eles. Naquele mesmo ano, os moradores de uma cidade próxima, Kaufman, emboscaram e mataram um agente do Departamento de Dallas. As autoridades locais acabaram intimidadas demais pelos criminosos racistas para ajudar o Departamento a processar qualquer agressor, a proteção que se dane.

A intimidação veio na maior parte do Ku Klux Klan (KKK). Em 1868, eles montaram um acampamento improvisado de treinamento militar de aproximadamente 100 a 300 homens (depende para quem você pergunta): rebeldes, bandidos e membros do KKK liderados por um homem chamado Bickerstaff. Eles tiravam os homens negros e pró-Unionista de suas casas, os chicoteavam publicamente e os deixavam amarrados em árvores, ocasionalmente atirando e estuprado suas mulheres, não bastando ainda saqueavam e incendiavam suas casas e negócios.

Logo, o serviço postal parou de operar. Residentes pararam de fazer festa americana ao ar livre e bailes “com medo de uma emboscada.” Em uma noite do ano seguinte, a gangue de Bickerstaff arrastou Dr. Page — um médico local com pacientes negros — para fora de sua casa, mutilou o corpo dele e deixou a sua cabeça pendurada em uma árvore com um cartaz avisando “que outros logo seriam tratados da mesma maneira.” Quando as autoridades prenderam o suspeito do homicídio do Dr. Page, um bando do Bickerstaff de 30 a 50 homens armados invadiram a prisão e libertaram ele.

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Um flyer de recrutamento do Ku Klux Klan distribuído em 2014 e 2015 para as cidades vizinhas de Wills Point, Edgewood e Fruitvale — todas cidades que, assim como Grand Saline, ficam no Condado de Van Zandt

Além desses casos, é difícil encontrar provas documentadas do racismo da cidade através dos anos. Em 1993, depois que uma família negra se mudou para o conjunto habitacional de Grand Saline, flyers do KKK começaram a aparecer nas caixas de correio e nos para-brisas dos residentes locais. Apesar de mais nenhuma violência ter ocorrido, um morador negro relatou que a família ainda vivia com terror com a polícia os protegendo 24 horas por dia. Eles logo se mudaram da cidade.

Contudo, a presença do KKK persiste até hoje, cercando literalmente Grand Saline com divisões ativas em Mount Pleasant, Lone Oak, Greenville, Longview e Dallas — todas dentro de 112,7 km em todas as direções.

“Qualquer um que cresceu no leste do Texas sabe a história dessa cidade. Não é um segredo,” escreveu Wendi Callaway, editora do The Grand Saline Sun, em um post de quase 2.000 palavras no Facebook publicado 10 dias depois da morte de Moore. Ela continuou, “As ‘lendas’… e a atividade proeminente do Ku Klux Klan nessa cidade antes, durante e depois do Movimento dos Direitos Civis nos anos 50 não é folclore ou histórias de fogueira. Elas são reais.”

Ela se compadeceu com a perspectiva de Moore, até afirmando que ele “não fez mais para promover mudanças aqui porque ele estava com medo” de retaliação. Ela pediu aos leitores que examinassem os seus próprios racismo e elogiou outros por ajudarem a melhorar a imagem preconceituosa da cidade. Mas nem todo mundo compartilhava do seu apreço por Moore.

Bert Rex Fite, o atual editor do The Grand Saline Sun chamou Moore de idiota por fazer a cidade parecer cheia de racistas do meio do mato. Um empregado do mini-shopping onde Moore se matou chamou Moore e seus parentes de “pirados” acrescentando, “Eles eram todos malucos, todos eles.” Três meses depois do post do Facebook dela, o então diretor da redação Dan Moore demitiu Callaway. Quando perguntado por que, ele só respondeu, “Era hora de uma mudança.”

Behind the altar at First United Methodist Church in Grand Saline, Texas.
Detrás do altar na First United Methodist Church em Grand Saline, Texas. (imagem via Blair Rowan)

O ministro da First United Methodist Church de Grand Saline, Reverendo Bobby Davis, somente ouviu falar de Moore e de sua suposta exclusão da First United depois que Moore morreu. Davis diz que ele teria convidado Moore para ver o quanto a congregação tinha mudado.

Claro, Grand Saline é uma cidade de 3,2 km com 2.396 brancos e somente 22 negros, mas Davis diz, “Eu não vejo nenhum racismo declarado. O que vejo é um envolvimento público da comunidade, o desejo de ajudar pessoas, de se engajar, de compartilhar o evangelho de Jesus Cristo. Tá todo mundo aqui com pensamento tão diversificado quanto eles precisam estar?”

Ele se perde um pouco, contemplando brevemente na porta do santuário, e então continua, “eu acredito de verdade que essa igreja seria acolhedora com qualquer pessoa de cor, de qualquer orientação sexual e assim por diante.” Ele aponta para o Dr. Richard Taylor, o pastor interino negro na igreja ao lado predominantemente branca Main Street Baptist Church, como evidência do movimento da comunidade na direção certa.

Algumas semanas depois da morte de Moore, 13 moradores de Grand Saline assinaram uma carta para o The Grand Saline Sun refutando a reputação racista da cidade. Eles alegaram que a história violenta da cidade após a Guerra Civil não era pior do que qualquer outro lugar do sul, e que se qualquer outra violência excepcional tivesse ocorrido, haveria cobertura da imprensa nacional. A carta conclui:

“Há racistas em Grand Saline hoje? Sem dúvidas. Somos uma comunidade racista? Deus me livre… Nós trabalhamos e nos voluntariamos incansavelmente para tentar melhorar nossa cidade e nós recebemos pessoas de qualquer raça ou etnia com braços abertos. A última coisa que precisamos é de mais publicidade negativa e o reconto de ‘folclore e histórias de fogueira’ que depreciam a nossa cidade, especialmente se elas são apresentadas como ‘a verdade.’”

James Sanchez — que morou em Grand Saline por cinco anos e é doutorando na Texas Christian University (Universidade Cristã do Texas) — está escrevendo uma dissertação sobre a morte de Charles Moore intitulada The Pain in Forgetting and Remembering Racism (A Dor em Esquecer e Lembrar do Racismo). Ele se lembra claramente de diversas ocasiões racistas durante seus anos jogando futebol americano no ensino médio em Grand Saline.

Apesar de um quarto do corpo estudantil ser composto por Hispânicos, um técnico o chamava regularmente de “Rolinho de Taco.” Outro técnico avisou ao time para não provocar os oponentes negros porque ele se tornam melhores atletas quando estão com raiva. Sanchez também ouvia a pseudociência muitas vezes repetida que os negros corriam mais rápido por causa dos músculos extras nas pernas deles.

Uma vez, depois de uma conversa motivacional, ele escutou alguns jogadores de futebol americano no ginásio cantando, “Estamos bem porque somos todos brancos!” — ao alcance dos ouvidos de adultos que não falaram nada. O fato de que qualquer um poderia considerar tal cântico admissível ilustra para Sanchez a mentalidade que impregna Grand Saline. Racismo existe em pequenas variedades cotidianas, mesmo se você não conseguir aponta-lo em um artigo de jornal. E quando você as coloca todas juntas, diz Sanchez, forma uma cultura e uma reputação.

Sanchez escreve no seu blog pessoal:

“As vezes a verdade não precisa ser histórica; ela pode ser percebida… Como a história do declínio do racismo em Grand Saline devido a escassez de descoberta de evidências documentadas, sua percepção continua em uma chama ardente implacável… uma que ainda se avulta no presente. Uma que nunca vai se extinguir a não ser que eles conscientemente e explicitamente tentem erradica-la.”

Mas para Bill Renfro — o marido da enteada de Moore que descobriu a nota de suicídio dele sobre Grand Saline — ao se focar muito no racismo de Grand Saline, a maior questão se perde:

“Grand Saline era muito secundária no motivo geral para o ato [de Moore]. Ele experienciou certo ostracismo por causa de suas inclinações liberais… e ele carregou essa mágoa e essa dor. Mas era uma pequena parte de quem ele era, o que ele defendia e o que o ato foi. Não estou menosprezando. O que eu não quero ver é o foco (em Grand Saline) quando ele estava fazendo uma declaração para as injustiças na nação e no mundo.”

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Charles Moore trabalhando na Índia com o Instituto Ecumênico. Apesar de sua esposa Patricia ter se juntado a ele no exterior, os seus dois filhos ficaram com outras famílias nos EUA durante a ausência deles. (imagem via William Renfro)

Ao focar em Grand Saline também se deixa passar um segundo ponto importante: que as pessoas que se matam estão geralmente mentalmente doentes. Moore se matou não só para protestar o racismo, mas também porque ele estava deprimido. Moore tinha muitos arrependimentos e dúvidas sobre o trabalho de sua vida. A fim de reconstruir comunidades com o Ecumenical Institute (EI) durante o final dos anos 60 e início dos anos 70, Moore separou sua família efetivamente, algo de que ele se arrependeu pelo resto de sua vida.

Depois de chegar em Chicago em 1968, Moore mandou seu filho de 12 anos, Steven, para uma família do EI em Michigan para que ele pudesse viver e trabalhar em projetos da comunidade com adolescentes próximos de sua própria idade. Moore, sua esposa Patricia e o filho deles de 6 anos, Guy, passaram a morar em um minúsculo apartamento dormitório em um complexo do EI no gueto. Guy lembra de lá como uma zona de guerra com intrusos escalando as cercas à noite, tijolos jogados através das janelas do apartamento e membros de gangue roubando e atirando enquanto ele ia e voltava da escola. Sendo um dos únicos estudantes brancos na Leif Ericson Elementary, as crianças negras batiam em Guy para conseguir dinheiro, sem se darem conta de que seus pais ganhavam apenas um modesto estipêndio pelo trabalho deles.

Guy mal via seus pais. Exceto por um breve intervalo de manhã e na hora de dormir, o cronograma arregimentado do EI mantinha Patricia e Charles na igreja e nas atividades da comunidade de 5 da manhã até bem depois do anoitecer. Guy diz que outros adultos basicamente criaram ele; com o tempo, ele começou a perder a confiança nos seus pais e a manter seus sentimentos para si mesmo. Charles e Patricia traziam Stephen de avião diversas vezes por ano para o Natal, o aniversário dele e finais de semanas aleatórios, mas eles nunca viveram como uma família novamente.

Patricia se sentia em conflito. Apesar de admirar as metas para mudar o mundo do EI, ela achou Chicago assustadora e não gostava de ver seus filhos crescendo sem ela. Ela considerou o divórcio, mas diz que, “Na época que eu cresci, o divórcio era muito mal visto e quando você fazia uma escolha de vida em relação ao seu parceiro, era isso: uma escolha de vida. Eu achava que eu tinha que fazer parte [do Ecumenical Institute] porque era isso que ele estava escolhendo fazer.”

Charles disse que se ela tivesse se divorciado dele, ele a chamaria de desertora e teria a guarda total dos filhos deles, então ela ficou. Depois Charles e Patricia partiram para participarem de tarefas do EI por seis meses na Índia, Guy e Steven foram viver com outras famílias do EI e por fim saíram da escola. Esse foi  o ponto de ruptura para ela. Ela se mudou de volta para os EUA em 1977, se reuniu com seus filhos e se divorciou de Charles no ano seguinte.

Charles por fim expressou sua tremenda culpa para o seu filho mais novo. “Ele desejou que tivesse feito as coisas diferente e sentia muito pelo sofrimento que Steve e eu passamos e que ele não era um pai muito bom,” Guy diz. “Ele estava sempre preocupado com a luta humana em grande escala, as vezes isso vinha a custo de sua família.”

Contudo, ao assistir Charles interagir com seus netos, Guy viu um novo homem — um homem que dava abraços, dizia “eu te amo” e brincava — tudo que Charles nunca fez com seus próprios filhos.

“Eu acho que ele estava aprendendo a amar só agora,” diz Patricia sobre os anos finais de Charles. “É uma coisa amar a humanidade, salvar a humanidade. É outra coisa completamente diferente amar diariamente aqueles com quem você é íntimo. Fale o que quiser, mas nunca é fácil”

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A carta de adeus de Charles Moore para sua esposa Barbara, escrita em 2014. (imagem via William Renfro)

Ao contrário do que é retratado na TV e nos filmes, a maioria das vítimas de suicídio não deixam notas normalmente; somente 25% delas. Elas geralmente também não escolhem locais significantes or sentimentais para o suicídio, elas apenas escolhem o local que ofereça a melhor chance de sucesso. A maioria das famílias também não anunciam publicamente o suicídio de entes queridos, porque o suicídio carrega um estigma de insanidade, vida pouco saudável e negligência emocional. Mas em todos desses três casos, Moore se provou uma exceção.

Debaixo da pasta de papel pardo contendo suas notas suicidas, Renfro encontrou uma segunda pasta com um obituário escrito por ele mesmo com uma foto dele colada, seus desejos finais para a cerimônia em sua memória e a lista de pessoa para contatar, incluindo o repórter do 60 Minutes que tinha entrevistado ele em 1995 durante sua greve de fome. Pareceu para Renfro que Moore queria sua história compartilhada com o mundo. Então com a autorização da viúva, Renfro e sua esposa fizeram cópias digitais das notas de Moore e as enviaram para a imprensa local e nacional.

“Na minha cabeça,” Renfro disse, “Eu queria que a história fosse publicada porque para mim a morte dele era mais do que apenas ‘Cara Estranho Comete Suicídio De Uma Maneira Horrível.’”

 A pasta também continha a carta de despedida de Moore para sua esposa Barbara. A carta dizia:

“Eu sei que algumas pessoas vão me chamar de louco, e me acusar de crueldade contra você e o resto da nossa família, [e] insistir que eu só queria atenção… mas eu também estou convencido que algumas pessoas vão se comover para agir… votando, doando dinheiro, com manifestações e assim por diante… eu sei que as nossas famílias vão ficar profundamente magoadas com a escolha abominável que fiz (especialmente meus netos), mas talvez a resposta positiva vá fazer uma diferença.”

Imediatamente após o suicídio dele, Barbara entrou em depressão profunda. Apesar de Renfro e sua esposa terem protegido ela das perguntas da imprensa, o estresse e a ansiedade após a morte de Charles piorou a fibrilação arterial e a pressão sanguínea instável dela. Em alguns dias ela se rompia em lágrimas inesperadamente e se desculpava por ser tão fraca. Uma vez ela desmaiou em casa e teve que ir para a emergência no hospital. Ela se mudou para um conjunto de apartamentos para idosos perto de Austin para ficar próxima de sua filha, mas em cinco meses, ela morreu também.

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Charles Moore lendo antes de celebrar o casamento de sua enteada (imagem via William Renfro)

Entre seus desejos finais, Moore solicitou uma igreja e um ministro Presbiteriano para celebrar a cerimônia em sua memória. Ele tinha ficado amigo de Lou Snead da Faith Presbyterian Church durante os anos 90 enquanto servia na Grace United Methodist Church em Austin. As igrejas ficavam a cerca de 1,6 km de distância e ambos os ministros seguiam o “evangelho social” — a crença de que as igrejas deveriam abordar problemas sociais.

Juntos, eles acolhiam os pobres e pessoas LGBT nas suas congregações e fundaram a South Austin Assistance Ministries, um grupo de assistência a pobreza que dura até hoje. Quando Moore se aposentou em 2000, ele falou para sua congregação para assistir o culto na Faith Presbyterian se eles achassem o substituto dele muito conservador — cerca de 15 pessoas entraram para a igreja de Snead depois da aposentadoria de Moore.

Apesar de ambos compartilharem um visão social, Snead não compartilhava da visão pessimista do mundo de Moore. Ele concorda que as políticas de privilégio branco, pena de morte e armas estão todas se movendo na direção errada, mas isso não o deprime; ele apenas sente que mais vozes precisam apresentar uma visão alternativa do que poderia ser a realidade.

Moore, por outro lado, se sentia consternado e desesperançoso depois de ler sobre política e as notícias mundiais; Snead começou a sugerir que a esposa e os parentes de Moore escondessem o jornal de manhã para evitar que Moore ficasse aborrecido. Se Moore estivesse vivo, diz Snead, ele provavelmente teria encontrado esperança no progresso do movimento Black Lives Matter e nas reformas econômicas propostas por Bernie Sanders.

“Como para a maioria das pessoas, para mim isso foi uma tragédia,” diz Snead, “que Charles de algum modo chegou a um ponto onde ele sentia que ele não podia mais eficazmente abordar esses problemas éticos e morais sem fazer algo drástico e acabar com sua vida.”

Apesar de Snead ter conduzido a cerimônia, Moore quem escolheu todos os hinos e panegíricos. Ele também especificou que ele não queria que se falasse em vida após a morte e nem julgamentos sobre sua morte, mas em vez disso, ele queria que a cerimônia celebrasse seu compromisso com a justiça social. Neste sentido, ele nomeou Andy Smith, um dos membros assumidamente gay de sua congregação na Grace United Methodist, para falar sobre seu trabalho LGBT.

Smith foi pela primeira vez a igreja de Moore depois de ouvir sobre suas posições progressistas envolvendo as questões LGBT, mas logo descobriu que eles tinham muito em comum: ambos cresceram no leste do Texas e ambos estudaram na Tyler Junior College e SMU. Como fundador da Log Cabin Republicans of Texas (um grupo gay conservador), Smith começou a levar seus colegas da Log Cabin para a igreja de Moore e logo encontrou Moore desafiando as opiniões deles com sermões contra a pena de morte e em apoio aos direitos de transgêneros.

“O sermão dele sobre Lázaro saindo da tumba permaneceu comigo por mais de 20 anos e continua sendo o melhor sermão que eu já ouvi,” Smith disse durante seu panegírico.

Smith disse:

“Eu lembro de Charles dizendo… ‘Lázaro, saia dessa tumba fresca e confortável. Se envolva com o mundo e faça a diferença.’ [Os sermões de Moore] me deixavam desconfortável e por fim me faziam deixar a tumba fresca e confortável de ignorância, mal-entendidos e retaliação em nome da justiça…

Eu lamento muito que Charles sentia que ele não tinha feito o suficiente para progredir as causas com que ele tanto se importava, porque eu sinto que ele fez uma grande diferença comigo, com a Grace, com essas questões, e, eu especialmente acho que conforme a sua história for contada e mais pessoas conheçam ele… com outros também.”

O reverendo Jeff Hood, outro presente na cerimônia, tinha conhecido Moore através da Texas Coalition to Abolish the Death Penalty (Coalizão do Texas para Abolir a Pena de Morte). Ele sentia que a maioria dos ministros e clérigos presentes não sabiam o que tirar do suicídio do Moore.

“Eu não tenho certeza se podemos chamar isso de um suicídio,” disse Hood. “Eu acho que o Charles sentiu que ele foi forçado pela nossa sociedade a realizar esse ato. Ele sentia que ele não tinha nenhuma outra opção. Então de uma certa perspectiva eu sinto que nossa sociedade foi o que matou Charles. Você poderia até chamar isso de um assassinato, um assassinato nas mãos de uma sociedade má, injusta e imoral.”

“Eu vi como algo muito espiritual e lindo,” Hood continua, “mas realmente meio que aterrorizou [outros clérigos] e eles meio que correram disso.”

Enquanto alguns expressaram culpa por não terem estendido a mão a Moore antes de sua morte, um colega mais antigo disse a Hood, “Não há nada nisso para ser admirado. O trabalho de um reverendo é rebater o maior número de bolas possíveis, e Charles simplesmente entregou o jogo.”

Moore provavelmente teria concordado com seu colega. A falta de resposta nacional após sua morte pode ter exacerbado seus sentimentos de inadequação. Apesar de quase 300 pessoas terem comparecido à cerimônia em sua memória, nenhuma TV local realizou a cobertura: nem a NBC, CBS, FOX, nem o 60 Minutes. Ele teria recebido mais cobertura se tivesse se suicidado na SMU, mas história é história, e talvez cobertura da mídia seja uma medida inadequada para medir a influência de Moore.

Apesar de todo seu trabalho sobre igualdade racial e direitos LGBT, a igreja Metodista dos dias modernos também luta com ambas as questões. Um relátorio de 2008 da Igreja apurou que os membros Metodistas eram 90% Brancos e somente 5.8% Negros — mais de 10% de diferença do Censo dos EUA. Em 2009, 23 igrejas United Methodist (Metodista Unida) historicamente negras fecharam para sempre, deixando “menos de 2.300 igrejas negras em toda a denominação.”

Apesar de uma decisão em Junho da Suprema Corte dos EUA legalizando casamentos entre pessoas do mesmo sexo por todo o país, a Igreja ainda proíbe o seu clero de oficiar núpcias entre pessoas do mesmo sexo, e isso não deve mudar. Uma votação de 2012 para abrandar a posição da Igreja sobre a homossexualidade perdeu por 61% a 39% com o grande contingente nativo africano da Igreja votando unanimemente contra. O contingente africano vai compreender 40% de toda a igreja em 2016, a próxima vez que eles provavelmente vão reconsiderar a posição antigay deles.

Algumas pessoas acham que somente uma cisma pode resolver a discordância, ainda sim sinais de mudança persistem. Em 2011, a Igreja suspendeu Amy DeLong — uma pastora assumidamente lésbica que oficiou um casamento lésbico — mas eles não excomungaram ela; na verdade, eles pediram para ela fazer um rascunho de diretrizes ajudando futuros ministros a servir seus congregantes LGBT dentro dos limites da lei da Igreja. Similarmente, em 2013, a Igreja negou a a ordenação de Mary Ann Barclay, uma lésbica assumida candidata ministerial, e mesmo assim, a corte suprema da denominação pediu ao conselho de ordenação para reconsiderar Barclay. Barclay — que agora vive como uma pessoa agênero — foi subsequentemente rejeitada, mas a intercessão da corte continua sendo notável.

Então apesar da morte de Moore não ter levado a uma revolução, pode ter plantado sementes para outras mudanças significativas. “Mesmo que as coisas não virem notícias nacionais e internacionais,” disse Hood, “você não tem ideia de quem você vai afetar. E se você de fato afetar alguém, então talvez seu posicionamento valha a pena.”

Assim como um das pessoas que realizaram o discurso fúnebre de Moore disse, de acordo com relatos: “Charles via o mundo em chamas e ele se recusou a deixa-lo queimar.”

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