Doutor Maravilha fala sobre PrEP com o Hornet

Esse é o primeiro artigo de uma série de outros materiais que o Hornet vai apresentar sobre o PrEP. Fique atento a todas as matérias e não perca a chance de se informar sobre essa nova forma de prevenção contra o HIV.

Você sabe o que é PrEP? O Hornet foi falar com o Dr. Marcos Borges  que além de médico é youtuber, e tem o canal Doutor Maravilha onde explica diversas questões acerca de ISTs – infecções sexualmente transmissíveis e alerta seus seguidores, em sua maioria gay, sobre a diferentes possibilidades de prevenção e tratamento.

Confira a entrevista:

 

A PrEP é uma nova forma de prevenção do HIV. Qual a melhor forma de descrevê-lo aos homens gays que ainda não a conhecem?

Acredito que a melhor forma de descrever o PrEP, embora seja um pouco criticado, é como se fosse uma pílula anti-HIV. Não acredito que o conceito de profilaxia seja claro para a maioria da população, mas que a expressão pílula seja completa. A ideia é trabalhar o conceito básico, que é uma medicação primeiramente disponível às populações de risco, sempre trabalhando a conscientização de que é prevenção combinada junto com o preservativo e gerenciamento de risco que significa dar autonomia às pessoas escolherem quais os melhores caminhos de prevenção.

 

A PrEP estará disponível no Brasil em dezembro. Como você está informando aos pacientes sobre o acesso à medicação e como você decidiu se assumir como um médico gay a fim de ajudar as pessoas através nas redes sociais?

Eu trabalho em um centro de infecções sexualmente transmissíveis, então para os pacientes que já fazem uso de PeP ou os HSH ou os trabalhadores e trabalhadoras do sexo que já tiveram infecções, eu procuro informar a todos quando eles estão em consulta, falo que a partir de dezembro teremos a seleção e falo dos cuidados ao tomar o PrEP, sobretudo, que eles procurem nossas unidades, plantando a semente para um engajamento maior.

 

O Doutor Maravilha foi criado justamente porque percebi que falta representatividade da comunidade LGBT na assistência à saúde e a partir do momento que participei do diagnóstico de um jovem de 13 anos com HIV em estágio avançado – AIDS – sem suporte familiar e sem condições financeiras, eu decidi ajuda-lo, mas pensei que poderia haver muito mais jovens nessa situação. Vejo que os pacientes que me procuram vêm até mim por saberem que sou gay e não querem passar constrangimentos em consultórios, o que impede as pessoas de buscarem ajuda.

 

Pela sua experiência, como você descreve o relacionamento do homem gay brasileiro com o HIV? Medo, ansiedade, indiferença?

No Brasil, acredito que a grande parcela da população ainda tem muito medo do HIV porque o associa à epidemia de AIDS no início da década de 80 e 90 e as pessoas ainda têm muito medo de se testar, porque não acreditam na expectativa de vida do paciente que está em tratamento, então o preconceito ainda é latente sobre o fulcro da retaliação, e não assumem que são positivos visto que não têm autonomia de gerir seus riscos e estratégias. Muita gente ainda acha que a única forma de prevenção é o preservativo e não conhecem as outras tecnologias.

 

A PrEP não é falada abertamente no Brasil. Como podemos provocar mais debates sobre seus benefícios?

Acredito que a melhor forma de informar é através do empoderamento dos jovens, dos adultos, e também da população LGBT mais velha que está invisibilizada. Temos que promover eventos e campanhas, usando principalmente as redes sociais. Mas estamos vivendo em um momento que não se fala sobre sexo, sexualidade, e isso limita o assunto HIV. Precisamos falar por fontes confiáveis como médicos, agentes de saúde ou até alguns influenciadores digitais e fomentar essa informação desde os consultórios até às casas das pessoas, incluindo os encontros de família com muita naturalidade.

 

O que você diz aos pacientes que são diagnosticados com HIV para aliviar seus medos, ansiedade e eliminar estigmas?

Esse foi o tema das minhas últimas palestras. Tento ser o mais empático possível. Sempre dou um tempo para o paciente se expressar no ato do diagnóstico. As pessoas lembram de quem deu o diagnóstico para sempre. Por isso tento pensar no que eu queria ouvir e tento criar um rebatedor dos medos. Tudo o que ela tem de ruim eu tento desmistificar. As pessoas acham que vão morrer mais cedo, então falo da expectativa de vida que é igual a de quem não vive com a doença. Acreditam que vão ter que tomar muito remédio e passar mal, então falo que hoje você pode tomar um comprimido por dia e ir ao médico de 6 em 6 meses.

Explico a diferença entre AIDS e HIV e do tempo de evolução da doença. Mas principalmente tento tirar o sentimento de culpa, explicar que a pessoa não fez nada de errado, que a infecção é algo que pode acontecer com qualquer pessoa, visto que todos já se expuseram à situação de risco em algum momento da vida em maior ou menor grau. É uma longa batalha.