4 coisas importantes sobre pornografia gay

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O Dr. Joseph Brennan — um professor de mídias e comunicação social da Universidade de Sydney, Austrália — realizou uma extensa pesquisa sobre pornografia gay, principalmente sobre como é comercializada e as reações das pessoas através dos comentários online.

“Deixando de lado o papo de ‘pornificação’ da cultura gay ou a massificação do pornô gay,” afirmou em uma entrevista recente, “eu acredito simplesmente que a pornografia gay teve um papel historicamente importante na nossa comunidade.”

Ele publicou diversos trabalhos sobre o assunto. Aqui estão quatro coisas que ele descobriu durante sua pesquisa:

1. Caras com pênis menores tendem a ser comercializados como passivos ‘afeminados’ no pornô.

Antes de você reagir a essa observação com um “dã,” ela é importante por dois motivos: Primeiro, ela vai de encontro com a realidade, onde o desejo — e não o tamanho do pênis — determina a posição sexual do parceiro.

Em segundo lugar, Brennan observou que os ativos são frequentemente descritos nos pornôs como “masculinos,” “agressivos” ou “dominadores,” enquanto passivos são descritos como “novinhos,” “putos” e até mesmo “histéricos.” Essas descrições reforçam os estereótipos de gênero que retratam os passivos como mais femininos. Tais estereótipos afetam as percepções dos espectadores da pornografia gay e perpetuam cenas pornográficas que exibem a mesma dinâmica sexual repetidamente.

2. Espectadores gostam de pornô com “abuso” e “exploração”, a menos que pareça real demais.

Enquanto pesquisava os sites de pornô gay, Brennan descobriu que “sites com simulações explícitas de estupro e exploração parecem fazer sucesso online.” Um desses sites é o Boys Halfway House, um site onde a câmera é usada em primeira pessoa para colocar o espectador no papel de um assistente social que age como um predador caçando garotos jovens e pobres passando necessidade.

Os espectadores de pornô gay ficam excitados com a dinâmica de poder, mas Brennan acrescenta, “os espectadores fazem distinção entre o pornô de abuso ‘bom’ (claramente simulado) e ‘ruim’ (desconfortavelmente realista).” Um artigo recente sobre esse estudo concluiu que, “Parece haver uma linha não muito clara que, quando ultrapassada, faz com que os espectadores se sintam como se estivessem participando da cultura do estupro.”

Jake Lyons
Jake Lyons

3. Um “discurso de descartabilidade e nojo” cerca twinks passivos que dão sem camisinha.

A não ser que você seja uma super fã de pornô, talvez você não saiba quem é Jake Lyons, um twink que começou como passivo e acabou estrelando pornôs sem camisinha (“bareback”) antes de abandonar a indústria em 2012. Brennan percebeu que os comentários online tratavam Lyons como se ele valesse apenas uma punheta e não muito mais que isso. Ele também notou que eles reagiram com nojo quando Lyons começou a fazer cenas sem camisinha — uma reação interessante que contradiz o aumento da popularidade do chamado pornô bareback.

Deve-se destacar que Lyons atuava antes da chegada dos medicamentos de profilaxia pré-exposição (PrEP) — medicamentos que reduzem a transmissão do HIV em até 99.9%  — e muitos comentários online da época julgavam os atores por perpetuar comportamentos sexuais “de risco”.

Brennan disse que achou que as reações a Lyons eram dignas de estudo, não só porque “estão relacionadas com preocupações com a saúde sexual em razão de prática sexual de alto risco contrariando a indústria e a comunidade gay, mas também porque nos diz algo sobre o consumo do pornô gay e a objetificação e descartabilidade dos atores gays, em especial dos twinks passivos.”

4. Alguns espectadores ficam excitados com capitalistas explorando homens de antigos países comunistas.

Sites de pornô gay como Czech Hunter, Debt Dandy e Dirty Scout tem um tema em comum de turistas pressionando homens do leste europeu para transar com eles por dinheiro. É um ‘tema de exploração’ parecido com o Boys Halfway House.

Brennan argumenta, “Tais temas são o resultado de uma atração residual associada com a abertura do leste europeu ao oeste nos anos 90 e a promessa desses sites é o acesso ao (não tão) recentemente disponíveis, particularmente vulneráveis, jovens que supostamente são facilmente corrompíveis por dinheiro dos ocidentais.”

Esse tipo de site pornô também reforça uma visão regionalista de superioridade e poder militar do ocidente, que se encaixa no retrato americano e eurocêntrico da Guerra Fria e faz alusão à tensão entre os países ocidentais e aqueles mais próximos à Rússia.

 

Traduzido por Rafael Lessa.