Reportagem “Meu filho é trans” tem erros grotescos, diz jornalista

Esta é uma carta aberta à da jornalista Maira Reis à Giulia Vidale sobre a Matéria publicada na revista Veja (edição 2552, 18 de outubro de 2017) intitulada “Meu filho é trans”

 

Giulia, precisamos conversar! É sério…

Prazer, sou Maira, jornalista, trabalho com o público LGBT desde 2010, quando tinha 27 anos (a sua idade). Tenho a revista online de cultura LGBT Reversa Magazine e meu objetivo é dar uma ideia de algumas coisas que aprendi sendo jornalista, especificamente, jornalista LGBT. Sei que em uma revista há vários processos até que uma matéria seja publicada. Também sei que a jornalista responsável tem contato com o texto várias vezes antes de ele ser impresso. Portanto, o que me deixa angustiada com a sua matéria de capa é saber o quanto há de “enganos” nela.

 

Vamos lá, apresentar alguns deles:

No editorial da publicação está escrito que você, “durante 4 semanas, mergulhou no universo dos transgêneros”. E nesse tempo todo será que você atentou para o vocabulário que deve ser usado? Na capa, no editorial e no interior da publicação a palavra “condição” para se referir ao universo das pessoas trans toma conta do texto.

Você, ao escrever o texto, em nenhum momento, pensou:

– “Será que uma pessoa trans é condicionada àquela situação em que ela vive mesmo?”

– “Será que uma pessoa trans, ao fazer o seu processo de readequação de gênero, não está sendo livre, sendo ela mesma, ao invés de estar condicionada, presa em um corpo que ela não se reconhece?”.

 

Ah, aqui abro parênteses: não existe TRANSIÇÃO DE GÊNERO. E sabe por quê? Porque transitar é ir de uma condição a outra (ops, de novo a palavra condição). Será que você percebe o quanto é cruel usar o termo “condição”? O quanto é negativo? O quanto mostra que uma pessoa se restringe a estar fadada (é como se internamente você dissesse: “tadinha, puxa vida, essa é a condição dela”) a X situação? Não sei se a equipe de psicólogos, educadores e endocrinologistas que você consultou a informou sobre isso, mas não se usa o termo “transição de gênero”, mas sim “readequação de gênero”.

Quanto à cirurgia que as pessoas fazem, é chamada de “cirurgia de transgenitalização” e não “extração dos órgãos” como você escreveu. Como vocês falam em MUDANÇA DE SEXO?

Sério, vou até apontar o erro grotesco: página 80, segunda coluna, parágrafo primeiro, sétima e oitava linha:

“A questão das intervenções de mudança de sexo é…”.

Puxa… Ninguém muda de sexo, Giulia! Sabe por quê? Se uma criança MUDA DE SEXO, ela pode “desmudar” de sexo, não é? E você já conheceu alguém que alguma vez voltou para o sexo “anterior”? Aliás, aqui, mais uma vez, não é sobre sexo que estamos falamos, mas sim de gênero. Só para lembrar, sexo, no caso, seria usado para falar sobre o nosso aspecto biológico, que nos torna humanos. E quando falamos de pessoas trans, com certeza, a nossa parte biológica é só mais uma informação em relação ao todo que compõe uma pessoa.

Aqui recomendo que você vá atrás de informações sobre esse tema ao conhecer a Teoria Queer. (Só não vou entrar nesse assunto aqui porque esse texto precisa lançar luz em alguns outros detalhes). Logo, o termo adequado aqui é gênero, novamente, readequação de gênero. E não mudança de sexo.

Outra coisa, Giulia, você deve conhecer quem escreveu o texto do editorial, não é? Então, está na hora de você explicar algumas coisas para essa pessoa (ou, se quiser, encaminhar esse texto para ela):

 

1 – O universo das pessoas trans NÃO é algo SÓ comportamental. Se fosse, seria só dar apoio psicológico para 0.5% da população brasileira que, segundo a reportagem de vocês, correspondem às pessoas T. Ser trans é uma questão social, cultural, jurídica, de saúde e até de lifestyle. Comportamento é só uma das partes que merecem atenção quando se toca no universo de um indivíduo transgênero. Logo, ao meu ver, é super errado restringir as pessoas trans a um processo de mudança SÓ COMPORTAMENTAL.

 

2 – Um outro errinho básico foi o título do editorial: “Tolerância salva!”. Você jura? Tolerância vem da palavra tolerar (também não acredito que vocês não pensaram nisso ao escolhê-la!), sério mesmo que você acredita que alguém que tolera uma pessoa trans está salvando-a? Não, né… O que realmente salva é a ACEITAÇÃO! Aceitar o outro como ele é. Aliás, foi isso que os pais que estão contando as suas histórias nessa reportagem fizeram, aceitaram os seus filhos. E não os toleraram – até porque tolerar, nesse sentido, como disse acima, tem sim uma carga negativa nesse contexto.

 

3 – A mesma pessoa que fez o editorial foi quem deu o título à sua reportagem? Não existe saga em ter filhos trans. Vocês poderiam falar sobre quais são os processos envolvidos em se ter filhos trans. Mas não saga! A palavra “saga” remete à ficção (aventura repleta de incidentes), como se ser uma pessoa trans fosse algo como uma história irreal.

De fato, saga mesmo é ter que ler um texto de uma jornalista cisgênero que fez uma matéria sobre o universo trans, usando de sensacionalismo na linguagem, falta de carinho, empatia e cuidado, onde ficam evidentes a falta de uma pesquisa profundada e o próprio entendimento sobre a realidade das pessoas trans.

Agora, deixa eu só dizer algo sobre a capa, para depois conversamos mais sobre a reportagem. Vamos voltar nela, sim!

Que baita capa sensacionalista, hein? Por que você pode expor a criança, mas não o pai? Ah, sim, o enfoque da reportagem era a dificuldade de aceitação dos pais em relação aos seus filhos trans. Então, porque vocês colocaram o nome do pai na capa?

E, por falar em exposição, para quê expor o nome de nascimento de cada pessoa trans que participou da reportagem? Para quê? Isso é uma falta de carinho, cuidado e empatia com o outro tremenda. O nome de nascimento SÓ INTERESSA para a pessoa trans e a sua família, ok?

Divulgar o nome de nascimento é VEXATÓRIO! É desumano!

Ah, só para lembrar porque talvez há uma dificuldade de entendimento: uma pessoa trans luta, a cada minuto da sua existência, para ser reconhecida pelo seu NOME SOCIAL e não PELO SEU NOME DE NASCIMENTO.

Se não fosse assim, se ela estivesse “confortável” com o seu nome de nascimento, para que ela iria mudar? A mudança tem “n poréns” e o mais importante é como ela se reconhece e se sente. Logo, entende como é cruel você ter colocado, na reportagem inteira, o nome de nascimento das pessoas trans entrevistadas?

 

Ah, Maira… Mas, elas não se importaram.

Será mesmo? Realmente, eu não me importei (#sqn), diversas vezes, dentro do trabalho, que tive que escutar brincadeiras sobre ser sapatão. O que podemos tirar de lição é que vocês são realmente bons em provocar polêmicas e gerar revolta, afinal, no meu LinkedIn e Facebook só vi pessoas revoltadas com a “mensagem” que produziram com a tal imagem.

 

Parabéns ao editor de arte que conseguiu produzir este “trabalho”. Voltando ao conteúdo da reportagem, ressalto aqui que vocês deixaram de lado um ponto muito importante. Saiba que muitas, mas muitas pessoas trans, NÃO TÊM o apoio da família? Afinal, quando informam para seus pais que são trans, sabe o que acontece? Muitas são expulsas de seus lares, como animais sem dono e sem destino. Muitas não SÓ caem nas drogas, como foi reportado… O cenário pode ser e é bem pior.

Muitas vezes, pré-adolescentes a adolescentes que, aos 12 anos de idade, já precisam se auto sustentar, custe o que custar. Aliás, pensei que você, como jornalista, soubesse da existência da Casa 1, que, justamente, acolhe as pessoas LGBTs que hoje não tem um lar. Um outro ponto do seu texto que me chocou foi ler e sentir que é inconcebível ter usado a expressão CRIANÇAS CONVENCIONAIS? Sério, me explica, vai… Eu fiquei verde de vergonha ao me deparar com isso.

Não acredito que uma jornalista teve a capacidade de publicar esse tipo de “classificação de crianças” em uma revista de grande circulação nacional.

Se uma criança cisgênera é uma CRIANÇA CONVENCIONAL, o que é para você uma criança trans? Uma criança NÃO-CONVENCIONAL? Penso que você precisa mais de 40 semanas adentrando no universo trans para realmente ter feito uma matéria digna, sem tantos erros e enganos.

E estou te escrevendo, Giulia, para mostrar que esses erros é tudo aquilo que nós, LGBTs, lutamos diariamente para que a imprensa NÃO publique sobre nós e o nosso universo. E olha que beleza, hein, você vai e publica…E ainda com uma tiragem de milhão e duzentos mil exemplares.

 

Não vamos desejar parabéns pelo desserviço.

Obrigada. Sem mais,

Maira Reis.

 

Texto publicado, originalmente, no Linkedin.